Sent to yellowledbetterlx@hotmail.com,
at 23:38:11 16-2-2004
Eduardo,
Finalmente consigo não adiar sentar-me a escrever-te este primeiro e-mail. Faço-o, acredita, cheio de saudades, que mesmo se só passaram duas semanas, não me consigo habituar à tua ausência, que nunca tive antes. É estranho voltar a casa e ver o teu quarto sempre e exactamente com tudo na mesma posição. Não termos as nossas conversas. Pego na guitarra e sinto saudades que lhe juntes a tua guitarra. Argh, sou um cromo sentimentalão. Mas ficar um ano sem ti, meu irmão, é isso mesmo que me faz sentir, saudade. Aliás, creio que esse é o signo actual da minha vidinha. Saudades tuas, saudades da Sara. Até dos pais, e dos seus sermões. Nunca tinha sabido o que é que é chegar a casa todos os dias e só ter o silêncio à minha espera. Tudo sempre tão tranquilo. Eu que por vezes me enfadava com a confusão agora sinto falta de tudo e fico contente se o telefone toca, seja lá pelo que for. Jantar sozinho, eis algo que me custa. Só ter a televisão ligada para me fazer companhia. Passar o serão no silêncio, deitar-me no silêncio. Tanto, tanto silêncio que pesa, pesa mesmo... :o| Sabes, acho que ainda nem caí bem em mim de toda esta confusão. Só agora acho que me começo a aperceber que perdi a Sara, à medida que os dias passam sem a ver ou ouvir a sua voz. Os primeiros dias foram como uma semana de mais trabalho, ou quando ela vai de férias com os pais. Algo assim. Mas agora a minha rotina começa-me a explicar que a perdi, que não a volto a ver, pelo menos como a minha Sara. Como reajo? Eu tenho a certeza que fiz o que era certo, que fui fiel às coisas em que acredito. Mas custa, nem sabes quanto. Dou por mim a inventar razões para lhe ligar. Agora sinto raiva do que ela fez, das coisas que disse, daqui a pouco saudades, como se tudo o resto pouco importasse. Nunca pensei que pudesse chorar tanto. Há noites em que choro até que se me esgotem as lágrimas. Chego a sentir como se tivesse a garganta queimada do choro soluçado. Ninguém sabe. Ou se calhar todos mo adivinham na cara, quando entro no escritório no dia seguinte. Olha, sei lá.... Mas vou ter que esquecer. Decidi que não me vou deixar arrastar para a depressão. Mas francamente também ainda não sei muito bem qual é que é o melhor caminho para seguir em frente. Quando trabalho, esqueço. O pior é a noite, o tal regresso a casa. O Hugo tenta fazer-me companhia, o Afonso também. Às vezes vêm cá jantar a casa, às vezes bebemos um copo. Mas claro, não se tapa um buraco do tamanho daquele que eu sinto com a amizade do bom do Hugo, nem do Afonso que tem a sua Guida e a sua vida. Por isso, olha, decidi uma coisa. Preciso de uma fuga para a frente. E aqui entram as boas notícias. No próximo mês terei escritura da casa. Estou decidido, logo que tenha a chave na mão, mudo-me. Assim como assim, estou sozinho. Portanto mais vale que seja uma solidão com a minha cara. E sempre mantenho a cabeça ocupada na aventura de viver sozinho, organizar a casa. Acho que vais gostar muito quando a vires. É especial. Não é o apartamento luxuoso da Ericeira. Mas é... ... olha não sei explicar. Quando vi encantei-me. A mãe tinha razão. Sim, vais gostar do cantinho do teu irmão. :o)
Mas tenho mais duas estórias para te contar, ambas que me ocorreram hoje. Cada uma estranha a seu modo. Ouve só...
Hoje fui ouvido na PJ por causa da falsificação da assinatura. Por aí, a oeste nada de novo. Não me adiantaram nada e eu nada lhes adiantei. Quando saí da PJ, entrei numa cafezinho das redondezas, e quem vejo? A infeliz da brasileira do Lux, a do rapaz assassinado. Falei com ela. Não te sei explicar, mas senti vontade de o fazer, de me sentir humano, de lhe estender a mão, sei lá. Tinha um ar tão desamparado. Nem parece meu, eu sei. Mas olha, fiz-lo e senti-me bem. Conversámos imenso. Falou-me dela. Falou-me de tanta coisa. Uma pessoa diferente, tão diferente de mim. Mas eu senti-me bem, ali a falar com ela. Vim embora, mas não me apetecia, a sério que não. É estranho, há coisas estranhas, não achas? O caminho tão longo e tão rápido que se percorreu desde a maldita passagem-de-ano, traz-nos aqui.
Depois fui ver o Rogério, lembras-te dele, o correio do escritório? Está por um fio, creio. Acabado, fez-me imensa impressão. A esclerose múltipla está a um passo da vitória final, pelo que me disseram. Pobre tipo. No fim das contas, deixa de ser um destroço do hard rock dos anos 70 e passa a ser um Guru. Largou a sua erva e agarrou-se com unhas e dentes ao exoterismo. Tarots, eu sei lá! Falou-me de coisas estranhas. Fala com o mistério e o timbre dos profetas. Ou dos loucos e desesperados, penso cá eu. Agora o mais estranho: quando me vinha embora, agarra-me no braço e pergunta-me: “Estás pronto para ser um portador da luz?” – e diz-me que é isso que sou, um guia, um guia de almas, que um dia entenderei! – está a perdê-lo, o Rogério... ... se calhar estamos todos, pelos vistos... ... pobre Rogério, a eleger como guia o gajo mais desorientado, eheheh, lá se fodeu a bola de Cristal…
Mas chega de mim, e tu, esse Erasmus? Como começa. Quero saber tudo. Mulheres, farras, cidades... ... vá preenche o vazio do teu irmão com as tuas palavras com sotaque bolonhês.
Adoro-te,
Pedro
Anoitece. Luna percorre a calçada, abraçada sobre si mesma, envolta no xaile de lã, soprando vapor quente de respiração. Medita no singular do encontro daquela tarde. Em como se sentiu consolada por ver naquele quase desconhecido um rasgo de coração. Era agridoce olhar para alguém de quem francamente não retinha recordação e conhecer aquele que a arrastara do cadáver de João. Como se Pedro por ter participado daquele momento de intimidade trágica fosse de alguma forma parte da vida dela. E depois aquela atitude curiosa. Tristonho. Dócil, enigmático. Pedro fizera-lhe algumas perguntas amáveis e parecia genuíno quando perguntava dos seus sentimentos. Falara-lhe de vida e de procurar perceber o sentido das coisas, apesar da adversidade. Que a chave da felicidade era aceitar a perda. De si nada dissera, mas Luna podia sentir, sem saber explicar, que, ali, a sua tristeza não subsistia sozinha.
Finalmente entra a porta do velho prédio da Graça. Confere o correio e sobe os degraus de madeira em caracol, andar após andar. Todos os lances vencidos, até ao terceiro piso da sua porta, Luna congela. Horror. Do lado de lá, pode escutar a música de Djavan que enche o vazio do velho apartamento. Prende a respiração que se quererá soltar como corcel a galope, assim que tenha alforria. Não consegue sequer pensar. Talvez devesse fugir escadas abaixo em correria. Mas não sabe fugir, sem saber por isso se tenha coragem de ficar. A chave gira no trinco e Luna fecha os olhos e reza entre-dentes. A porta abre-se. A casa está imersa no silêncio. Só na sala brilham as luzes do verde digital do leitor de DVD’s. Caminha o corredor nessa direcção e tacteia o interruptor até que se derrame luz forte sobre a divisão.
Um grito. Um desespero chorado em urro de que não sabemos se ouviram os anjos e os espíritos mas que ouviram os homens.
Luna viaja de novo para lá das águas do seu baptismo.
Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano
E esqueço que amar
É quase uma dor...
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