segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Horas lentas - A Guilda dos Melancólicos - As horas brancas de Pedro - Parte IV


Sete e meia. Terá dormido? Não tem a certeza. A partitura alucinada em que retém os pensamentos sugere-lhe que sim, mas a neblina que lhe turva o espírito diz que provavelmente não dormiu por um minuto que fosse. E no entanto o dia assoma lá fora e resta a consolação de que em breve encontrará unguento para aquela angústia. O dia caminha para as três da tarde.

Uma manhã que se arrasta. Absolutamente nada lhe prende a concentração. Sente o cansaço de uma noite em claro a turvar-lhe as ideias. Os minutos escorrem vagarosos e Pedro sente que o seu espírito conta cada segundo. Não conseguiu amarrar a atenção a um livro nem tão pouco à televisão. É por isso que se entretém nas tarefas banais da preparação do almoço. Que explicações poderiam existir? – “Pensa, Pedro, caramba, pensa!” - Se é algo de grave, então aquele pedido de dívida não pode ser um mero engano. Só não vê como associar o nome de Sara a uma carta que é dirigida à sua mãe. Não tem lógica. Por outro lado se pensar que a peça estranha não seja Sara mas Sofia, então, dentro da completa desorientação em que os pensamentos o deixem em última análise, sempre pode encontrar um fio de coerência. Sara e o Banco. O Banco onde trabalhe a sua mãe. A partir daqui as cogitações são um beco sem saída. Distribui os pratos do serviço de jantar pela mesa, mecânico nos gestos, labiríntico nos pensamentos. - “Então afinal o que é que se passou ontem?”- interroga-o o pai, corpo descansado sobre a parede da entrada da sala.- “Mataram um tipo na festa. Confusão total. Houve pessoas que se sentiram mal, no pânico ainda houve quem se magoasse. Mas enfim, no fim das contas só ficou o desgraçado para a estatística.”- “Tens má cara, o que é que tens?” - Pedro olha para o pai e calcula a resposta. Não quer revelar aquele que por ora é um segredo dele com a mãe. - “Dormi mal. Não estás a ver aquilo. O tipo ficou sem metade da cara. Tenho o estômago embrulhado. Não dormi nada.” - O pai sorrri, enquanto bate o maço de cigarros contra a palma da mão. - “ Calma pá. Estas coisas acontecem. Viste, está visto. Supera-te. Pode ser que seja desta que tenhas perdido o teu cagaço.” - Talvez assim seja. Mas neste momento essa vertigem nem o incomoda muito. E todavia não lhe convém dizer nada. Sorriso pálido e segue a azáfama pela gaveta do faqueiro. O que é que podia relacionar o nome da namorada com uma dívida que a mãe não deveria ter? Nada as unia por esse ponto. Sara era a terceira filha da casa desde há muitos anos mas nunca, jamais, houvera envolvimento em questões dessas. Nunca houvera negócios, dinheiros emprestados. Nada, apenas a convivência, em intimidade, é certo, mas sem nada que a associasse aos assuntos financeiros da família, para além das conversas ocasionais em que Pedro lhe referisse o tema. - “Foda-se, Pensa, Pedro, pensa, onde é que pode estar a explicação, onde, onde, onde?!”

Uma e meia. Os convidados chegaram e Pedro senta-se à mesa, sisudo, absorvido. - “E a Sara, Pedro?” - Quem lhe dirige a palavra é a tia - “Está boa, tia.” - “A tua mãe já me contou de ontem. Faço ideia...” - “O quê?” - “Aquilo ontem lá na discoteca, o rapaz que mataram.” – “Ah, o jornalista do DN. Ouvi há pouco.” – o tio Olímpio comentava enquanto distraía o garfo nas ervilhas. Ao longo da mesa a conversa generaliza-se. Eduardo encolhe os ombros e confessa que já só viu de relance o rapaz no chão antes de se gerar a mais completa confusão. Também Pedro preferia que assim fosse, que se pudesse privar daquela explosão na têmpora do outro e dos miolos na poça de sangue. Mas nada diz. Não faz idéia. Não há ânimo para discutir a peripécia da véspera. E no entanto, indaga-se intimamente - “Jornalista, a vítima... ...poderia dar alguma lógica ao assunto. Fuçou demais? Ou então podiam ser assuntos de outra natureza. Dívidas de jogo. Sexo. Chantagem. Pensando bem este dado do jornalismo não fechava grandemente o leque das suposições...” - E Pedro também não se sentia muito tentado a reflectir sobre a charada. As suas próprias charadas apoquentavam-no bem mais. Não tem apetite. As noites em claro baralham-lhe invariavelmente o ritmo biológico pelo que sente um vazio estranho no estômago que também não é fome. É por isso que retalha a carne com o vagar e a ausência de ideias de quem não fome ou ânimo. - “Então, Eduardo, quando é que começa a aventura?” - “Vou no fim do mês, tia.” - “Bolonha, não é?” - Eduardo acena que sim - “E ficas lá até quando?” - “Volto em Dezembro.”- Numa conversa paralela, o pai discorre sobre os últimos acontecimentos da Casa Pia. Ao topo da mesa, coloquial, coordenador de tudo ao seu redor, como bem lhe apraz. A discussão anima-se de novo. Virgílio, do outro lado, molha os lábios no vinho tinto e meneia a cabeça em que não, que o Paulo Pedroso é mais uma peça que reforça a teoria da cabala. – “Uma cabala, porque não? Duvidam que essas coisas existam?!” – Pedro também não intervém. Normalmente fa-lo-ia. Neste caso opina a falta de opinião. Em última instância é tudo um acto de fé. Crença nas juras de inocência de uns? Teorias da conspiração? Ou o inferno de um submundo podre. Ou então, hipótese que lhe parece mais verosímil. Um pouco de tudo, em doses que não quer arriscar misturar ele próprio. Também ele não sabe de nada. Nunca viu nada. São tudo actos de fé. Mas hoje só a palavra cabala se lhe retém nas ideias. À sua frente na mesa, Eduardo interroga-o com uma ligeira oscilação de rosto. Responde-lhe em silêncio, para que apenas lhe leia nos lábios. - “Depois digo-te” - Sai discretamente da mesa. - “Quase duas horas...” - dá-lhe o mostrador do Tissot. A ansiedade é a bactéria que lhe consome a possibilidade de poder esperar tranquilo os escassos minutos que o separam de ser razoável ir para o escritório. Foi sempre assim, enrola-se-lhe o estômago, morde os lábios que teimam em secar-se-lhe e passeia o perímetro com o nervosismo de bicho em cativeiro. Preferia poder adormecer e esfumar na inconsciência aquela tortura de instantes a escorrer dolentes pela clepsidra da sua espera. Uma pergunta tatuada no coração - “Sara... ... o que teria feito Sara?”


Oh, Deus, eu poderia estar preso em uma casca de noz, e me considerar um rei do espaço infinito, não fora que tenho maus sonhos


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