domingo, 23 de setembro de 2012

João que persiste em não ir - A Guilda dos Melancólicos - Anjos e Homens - Parte III


A casa da Boneca está como Luna a deixou. Semi-desarrumada, depois da saída costumeiramente apressada para mais um dia. Uma luz débil de dia de Inverno entra pelas janelas de ambos os lados da casa e comunga a iluminar o corredor central que liga os hemisférios. Um copo sujo de leite sobre a bancada da cozinha, roupa suja pelo chão, almofadas. Sobretudo silêncio. O ar está agora mais frio. A Casa da Graça como que congelou num momento de tempo. O silêncio quebra-se do som da voz cantada e da guitarra. Sente-se a raiva crescer, abraçada na tristeza e na saudade. No caldeirão de sentimentos. Pela casa ecoa um urro do fundo do peito que estremeceria as próprias fundações do velho prédio, se alguém o pudesse escutar. Mas só um Anjo testemunhou o momento. E a energia da tristeza e da vontade de querer e não poder foi tão, mas tão grande, que o Anjo teve que se evadir num voo em direcção ao céu, a ver diminuir o prédio, a Graça e a Cidade, para que não perecesse do abalo a sua aura imortal. Entre paredes vazias estilhaça o vidro. E depois do som ensurdecedor, cai de novo o silêncio. E de novo só aquela voz melancólica ao som da guitarra. A Casa está de novo vazia...


Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor...

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