Pouco mais de vinte e quatro horas volvidas e Pedro descansa de novo o corpo sobre a cama. Desta vez não dorme, nem tão pouco se sente tranquilo. Bem o inverso, sente a inquietação nos músculos que se lhe enquietam em espasmos ocasionais. O provável equívoco de Marília transformou-se no caso sério do tom grave de Hugo. Mas não era isso que mais lhe oprimia o peito. Um erro, uma explicação lógica, uma burla. O que sabia sobre a vida permitia-lhe aceitar isso como uma possibilidade. Agora, Sara? Até que ponto confiava em Sara?! A traição de Sara? Seria possível? E até que ponto? O que é que o Hugo poderia querer dizer com aquela insinuação? Não podia ser. Simplesmente não podia ser. O pensamento de Pedro viaja alucinado entre os dois polos que lhe trazem os nervos em ebulição. A ideia de uma Sara que ele não conhecesse, capaz de o roubar e uma poça de sangue azul que alastra pelo chão. Quem seria aquele indivíduo a quem o russo estourava os miolos sem pestanejar. E o grito daquela mulher, aterrorizada, acossada a um canto com o rosto ensanguentado, enquanto Sara lhe amparava o rosto de olhos fixos no vazio. A força sobre-humana de Sara. A sua capacidade de chegar e tocar os outros, mesmo na violência do sangue que aflorava em Pedro os seus fantasmas mais profundos. Mas ela não. Poderia estar ali a amparar no colo um moribundo que se esvaísse de sangue e de vida, tranquila, numa transfusão da sua ternura para as veias de outrem. Como naquela mesma noite, em que abraçara aquela estranha ensaguentada para um canto e lhe afagara o rosto, como tantas vezes o fizera com Pedro. O sangue, sempre o sangue. Aquela poça a beber o seu caudal da fonte de um homem abatido. A escorrer pela testa de Pedro nesse dia longínquo em que abrira a testa. Fecha os olhos. E dessa profundidade das suas memórias desenterra a avó que decapitava as galinhas com a faca de lâmina meio romba. Segurava o bicho que no olhar parecia saber o seu fim e com um golpe arrancava-lhes a cabeça que caía de olhos abertos e língua prostrada no cimento ensanguentado. Só lhes ouvia um cacarejar pálido no segundo antes que a lâmina as ceifasse e depois a cabeça e o corpo separavam-se. Na pilha de cabeças mortas e nos corpos alinhados. Ele ficou ali, não sabe quanto tempo, escondido, a sentir dentro de si o horror da sua descoberta. Sem que pudesse fazer o que quer que fosse. Sequer fugir. A cada golpe, espirrava o sangue que a bata bebia e que se salpicava na pele enrugada e no cabelo da mulher, como naquela noite, no rosto salpicado da namorada. Finalmente conseguiu correr, pelo monte abaixo, para o santuário da vinha, fortaleza das suas fantasias onde era rei e onde o sangue das galinhas da avó não corria. Sentado com a cabeça entre os joelhos, chorou e chorou até que o Sol se começasse a esvair numa esfera laranja, sob os montes lá longe, entre as sombras das amendoeiras em contra-luz. Nesse dia não tivera pressa de se sentar à mesa com a avó. Há quanto tempo! Teria o quê? Talvez seis anos. Sim. Pela mesma altura em que partira a cabeça. Só não sabia precisar a ordem dos eventos. Afinal a que saberia o sangue dos seus pesadelos? Ao seu próprio sangue ou a sangue das galinhas decapitadas nessa tarde? Os labirintos pelos quais se conduz Pedro nas suas divagações têm agora o saber férreo do sangue no seu paladar. O simples pensamento indispõe. Por isso, exorcizem-se os pensamentos. Pedro liga a televisão e procura a MTV. Puddle of Mudd. Já tem com que distrair a retina se as ideias elas mesmas não se conseguirem evadir, como bem suspeita que suceda noite dentro.
Cinco da manhã e persiste a vigília. A vigília hoje é uma questão. Será que conhece Sara? Quando pediu a Hugo que lhe verificasse o assunto não esperava nada daquilo. Tinha a manhã ocupada em audiência. Era só uma possibilidade, antecipar a ansiedade de descobrir pela mãe da namorada que tudo era um mero equívoco apenas dois dias mais tarde e descansar já as ideias definitivamente. Passar o Reveillon num sorriso sem reservas. Tiro amargo pela culatra. Hugo ficara de ligar para um contacto no Departamento Jurídico do Banco. Mas em vez da resposta ser uma explicação tranquilizadora era aquela pergunta aterradora. Notícias muito graves. E Sara! Seria sequer possível? Conhecia Sara desde os 16 anos. Um dia ganhava coragem para convidar aquela loira de cabelos em canudos e rosto pintalgado de sardas, que se sentava ao seu lado na Cambridge School, para uma tarde de cinema. E assim foi. No escuro de uma sala das Amoreiras, de olhos fechados, sob o pretexto da Lista de Schindler, Pedro arrojava-se ao primeiro beijo. Tal como sucederia a cada vez, cerrava os olhos e viajava no sabor dela. Nascia o romance. Poderia ter sido mais um beijo. Só um passo aprendiz de dois miúdos adolescentes. Podia… … mas não seria assim. O amor existe muito menos vezes do que se possa pensar, para mais na idade adolescente das vagas tão avassaladoras como inconsequentes que nos varrem. Mas para aqueles dois míudos não seria assim. Se o amor são duas margens que alguma alquimia une então entre eles corria um colosso de pedra. Sara era a planta frágil que Pedro jurara a si mesmo proteger. Mas Sara também era a árvore frondosa em que se poderia refugiar dos seus medos e das suas inseguranças. Tudo como um conto. A Pedro que sonhava romanticamente com uma Sara princesa nem faltava o seu Dragão. Aquele momento tão doloroso que, de tantas vezes o reviver no choro da namorada, se tornara tão real para si próprio que pensaria que teria assistido a tudo, imóvel a um canto a ver o corpo daquele homem violentar a carne a Sara, sem que pudesse fazer o que fosse, sequer cerrar os olhos, fugir por entre as videiras, como na tarde em que vira decapitar as galinhas. Sara! Tinham-se feito homem e mulher de mãos dadas. E é por esse atalho, como se por entre videiras fosse, que Pedro se esquiva às sombras negras que vão cercando o quarto. Em recordações da sua menina. A primeira vez que lhe tinha visto o corpo nu, sob a luz leitosa daquele velho candeeiro do quarto dela. E em como ela chorara enquanto a penetrasse com delicadeza – “Pedro, diz-me que és tu, diz-me que és tu!” - Sara perdida de embriagada que se deixava arrastar pela calçada enquanto que batia continências desingonçadas ao namorado que lhe ordenava que não cantasse - “Sim, meu Tenente-Coronel!” - Sara que esperava ansiosa pela sua sentença, quando ele provasse uma das suas receitas e fingisse que reflectia. Pedro sorri. Um esgar terno. Olha para o telemóvel. Devia-lhe ligar. Partilhar aquele fardo com ela. Juntos resolveriam tudo. Como sempre. Estica o corpo e tacteia o telemóvel. Nove seis, seis sete seis... … desliga. Não pode ser.
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