sábado, 22 de setembro de 2012

Fugitivos - A Guilda dos Melancólicos - Manhã submersa - Parte III


“A Ana acordou! A Ana acordou! Teresa!” – Teresa acorda estremunhada. São instantes de confusão. Porque não acordaria Ana?. Mas rapidamente a realidade se alicerça novamente ao consciente: “Quando? Mas...” – “Telefonaram-me agora. Vá, vamos para o Hospital!”

Após um primeiro esforço em que a madeira mal gizada em móvel tosco range e não cede, a porta do camiseiro franqueia-se a Luna. - “Coragem…” - pensa para si, enquanto as narinas se dilatam num esforço de se dominar. Retira uma camisa branca, depois do outro canto um fato em tons de cinza escuro. Deita-os sobre a cama. Sapatos, tem que ir buscar uns sapatos. E uma gravata. Uma gravata para o cadáver de João. E para quê? Poucas vezes as usou. Olha o conjunto. Olha o roupeiro de portas abertas que se exibem, o museu da vaidade de João. O perfume, o perfume de João emana de todos aqueles tecidos e quer burlar o luto da morena em que João ainda exista, se o cheiro dele lhe enche as narinas. Fecha os olhos e voa dali para fora. Para beijos e risos e tudo o que lhe roubam agora que nada mais tem que um monte de malhas que cheiram a canela da Gucci. Não é justo! Acordem-na! Parem, parem com tudo! Chega! A dor já sufoca por demais. Não quer escolher roupa para vestir um cadáver. Não, não, não! Quer voltar às saias do Santo e começar tudo de novo. Ver pela primeira vez o sorriso enorme do gigante. Cai de joelhos e a cabeça tomba sobre o casaco que as mãos apertam em garra e as lágrimas ensopam. Hoje o choro não se conterá num lamento recatado. Luna urra a sua dor e o nome do amante morto ecoa pelas paredes velhas do prédio. Um “João” longo e desfigurado pela convulsão em choro. Margarida corre a abraçá-la, resgatá-la do chão e das roupas que vestirão o corpo. – “Luna, Luna vá.” – Mas também ela cai de joelhos, num abraço e no choro que não pode regatear à dor imensa da amiga e ao próprio quinhão que a si pertence.

Ricardo caminha impaciente a sala-de-espera. Exaspera com aquela demora e olha de segundos a segundos a porta que dá acesso ao serviço, na esperança de que algo suceda. Tem o corpo moído das noites mal dormidas. Desde Quinta-feira que não dorme mais do que fracções inconstantes, a mais das vezes dentro do carro, no parque de estacionamento fronteiro ao Hospital ou no desconforto espartano daquela diabólica sala. Já ligou aos pais de Ana, já avisou a sua própria família. Suspira. A notícia de que Ana saíra do coma eletricizava-lhe o espírito em que a esperança já definhava ao cabo daquelas longas horas sem sinal de que algo pudesse suceder. E agora é esperar que haja luz verde para que a possa ver. Deus! Desesperava-o de não mais a ver com vida, desde aquele meio-dia em que lhe deu um beijo fugidio. “Vou para Lisboa.”. Depois aquele telefonema que o despertou na madrugada. Que viesse, Ana despistara-se na estrada da serra, no regresso de Lisboa. Nem sabe bem no que pensou. Não pensou. Correu como um louco para Leiria. Mas em nada poderia superar a sua impotência de estar ali à espera, esmagado pela ansiedade, primeiro da falta de notícias, depois do impasse da morte viva da namorada, suspensa naquele coma sem prognóstico adivinhado do que poderia suceder. Mas Ana despertara e ele só esperava que a pudesse ver e suster a mão dela na sua.
Finalmente a porta abria-se e a enfermeira fazia-lhe sinal de que a seguisse.

Marília levanta o corpo da água que principia a esfriar. Seja como for não convém que se demore muito. Quer sair cedo, antes que os outros despertem, para que a não possam importunar com o seu maldito interrogatório. Para já não, depois lidará com esse problema. Deixa que o toalhão lhe enxugue a pele e depois aconchega-se no robe de caixemira creme. Agora senta-se na cama e deixa que os dedos sejam gentis a percorrer-lhe o corpo com óleos. Cheira a amêndoas doces que se misturam no seu cheiro e Marília aspira deliciada a atmosfera com que aquele momento lhe brinda. Creme hidradante no rosto. Vira o corpo a estudar-se no amplo espelho do roupeiro. Sente-se mais magra. Mas bem sabe que a barriga flácida é perene pelo que quer exorcizar essa consciência tão rápido quanto possível. Lingerie de rendas e cetins pretos. As meias vítreas. Por cima a cinta. Marília sustém a respiração. Por cima virá o conjunto de saia plissada com casaco que trouxe das “Três Marias”. Anestesia-se a consciência da silhueta perdida no tempo e emerge a ilusão. Base no rosto, sombra, rimmel. O reflexo devolve o olhar cuidadoso que a actriz lhe empreste antes de mais um dia no palco e na ilusão. Que olhar? O espelho não pode dizer a Marisa que o Anjo a olha através dele. Intriga-o aquele olhar sem emoção, mortiço. Toda a sombra e rimmel e eyelinner do mundo não poderiam sublinhar um olhar que não transmite nada. E por isso não se demora em indagações que não são suas e sublinha o vermelho que passou nos lábios em contorno sem mácula. Afasta-se o suficiente e analisa o reflexo do efeito da transformação. Está bonita. Retoca o cabelo com os dedos. Algumas gotas preciosas de Tresor sobre a pele. Os pés encaixam no cabedal e Marília equilibra-se sobre os saltos de agulha Foreva. Toma a mala ao ombro e destranca a porta do quarto. Está pronta. Todos dormem ainda, crê. Se for silenciosa, sairá que ninguém a incomode.


O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa



A porta abriu-se revelando uma Ana recostada sobre um fofo almofadão, com o olhar perdido na cidade lá fora. Ricardo desfez-se no seu sorriso enorme. - “Ana...” – e antes que ela esboçasse sequer um gesto estava de joelhos à sua cabeceira, mendigando-lhe a mão.”- “Ana... ... até rezei.”- não saberia se quereria rir ou chorar. Provavelmente ambas as coisas. Ana fita-o como que sem uma expressão definitiva. Olhando-o à vez a ele e à sua mão, cativa que é das carícias de Ricardo. Por fim, retira-lhe-a delicadamente das dele. O rapaz levanta os olhos: “Ana, sentes-te bem?”- A rapariga devolve-lhe aquele olhar confuso. - “Sim, estou, mas... ... quem és tu?”

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