quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Cartas negras - A Guilda dos Melancólicos - Castelos de Cartas - Parte III

Sara suspira. Vistas bem as coisas tudo corre bem. É feliz na relação, tem um emprego em que se realiza, não pode dizer que lhe falte nada. E porém, enquanto constrói estes pensamentos, sente que é uma racionalização que lhe deixa um sabor a falso nos lábios. Houve alturas em que foi infeliz a sonhar com dias melhores. Um bosquejo óbvio pelas portas que tenta manter cerradas na sua memória, a morte dos avós, a violação. Mas são memórias antigas em que se vê menina e que cataloga com aquele sorriso aquebrantado que emprestava a todas as fotografias nessa época. Como aquele retrato do dia dos seus catorze anos. Simplesmente olhá-lo, oprime-lhe o peito e sente que chorará. Não sabe bem porquê. O dia em que aquele homem a arrastou para a garagem foi por aquela época, não se lembra bem se tenha sido antes do retrato. A memória prega-nos partidas e Sara não sabe se o sorriso triste impresso no papel é o de menina desflorada pela força bruta, com o rosto sobre o capot do velho mini do pai, ou sinal de outra coisa qualquer. Mas por estes dias os tempos transvestiram-se e é feliz a pressentir o abismo. Uma quase carreira, um quase casamento e uma felicidade tangível sob a sombra do infortúnio vaticinado. Quando se sentara perante aquela mulher com um traço de lápis ao invés de sobrancelhas não poderia suspeitar do prenúncio sombrio que esta lhe traria. Não queria nada daquilo. Nem saberia dizer se acreditava no que quer que fosse dessas artes esotéricas, antes desse dia. O futuro nas cartas...  ... não via exactamente como. Mas a alma de Sara era da ambivalência da sucessão do dia da racionalidade serena para a noite que reza e teme os espíritos das trevas. E por isso, quando Margarida a esporeou a fazer-lhe companhia pensou - “Porque não? Um placebo, que tenho a perder?” - A vizinha perguntaria pela sorte com mais um gajo que tinha conhecido. Sara sorriu para si e pensou que não precisaria de cartas para saber que era mais um idiota numa série de idiotas. E depois foi a sua vez. - “Acredita na palavra das cartas?” - a mulher olhava-a de baixo para cima, enquanto batia o baralho no tampo. “Francamente não sei...” - “Não sabe….  … então é porque acredita. Pode é ter dúvidas. Ter dúvidas faz parte da fé humana nas coisas.” - sorria enquanto lhe passava o baralho para a mão. Por enquanto Sara ainda sorria de volta. Secretamente perguntava-se onde estaria o baralho de Tarot, com aquelas figuras sinistras da Morte e do Enforcado e mais não sabe do quê. Aquela bruxa não adivinhara mais do que em traços muito vagos que o outro era um idiota com um ar de mulherengo. Grande coisa! Se ela, sem cartas, podia reconhecer só pelo cheiro o futuro de fracasso de mais uma cambalhota da amiga… … e agora propunha-se falar-lhe do seu futuro com um baralho igual aquele com que antes jogava ao “Sobe e desce” na Cantina do I.S.P.A. Não era de todo como imaginara, aquela entrevista, naquela sala de jantar de apartamento de classe média em Benfica, em que a senhora chegara para o lado a terrina de loiça barata e o naperon, para poder jogar as cartas desafogadamente. Se se atrevesse a falar do investimento ao namorado, o mínimo que lhe poderia acontecer era que sugerisse que muito mais bem empregue teria sido em irem jantar fora com o dinheiro da consulta. E o pior seria que se zangasse a sério. O seu ponto de vista era curioso - “Os clientes de mambo jambo deviam levar porrada. Primeiro porque são estúpidos em acreditar nessas coisas. Depois porque são normalmente mal intencionados, a querer lançar maus-olhados e feitiços de amor e outras ideias merdosas que tentem escravizar vontades alheias. Não que funcione, mas para mim a tentativa é punível. Porrada nos cornos!” - “Parta o baralho” – Sara obedecia, involuntariamente nervosa agora que o ritual tinha início. - “Quer saber de alguma coisa em concreto?” - era curioso como hesitava em responder aquela pergunta. Ocorreu-lhe uma variação de um cliché - “Cuidado com o que perguntas, pode ser que te respondam.” - e por isso, de repente, não se sentia tão etérea em estar naquele lugar como há horas atrás supusera. - “Eu...  ... eu quero saber se vou ser feliz com o meu namorado.” - as mãos de veias azuladas e salientes da mulher fizeram o mapa de cartas crescer sobre a mesa, sem que Sara ou Margarida lhes pudessem ler o que quer que fosse. Por enquanto silêncio. O olhar analítico da cartomante sobre as mensagens encriptadas nas cartas e o olhar especulativo das amigas sobre a cartomante. Margarida ansiosa. Sara, mais do que isso, inquieta. A cartomante ainda reflectia. Depois, a mulher meneou a cabeça negativa. - “Eu...   ... eu só vejo cartas negras entre si e esse rapaz. Filha, vem aí a tempestade.” - E depois…?  ...e depois a recordação de Sara daqueles minutos torna-se mais psicadélica, como se o baralho de cartas já não fosse o das cartadas de amigos e estivesse cheio de cartas de enforcados e como se a temporalidade banal daquele naperon e da terrina e do boletim de totoloto sobre a mesa de sala nada pudessem para obstar aos poderes proféticos de desgraça da bruxa. As palavras feriam. Estranhamente convictas, estranhamente indubitáveis. O amor que se vergará aos obstáculos. A inveja de quem não tem amor. A influência de uma mulher que dobra o mundo ao seu egoísmo. Que sentido faria tudo aquilo? - “O Pedro...  ... o Pedro tem outra mulher?” – Mais cartas vertidas na tábua - “Sabes o que é estranho, filha? Eu vejo amor. Eu vejo muito amor! Vejo um espírito nobre. Não vejo luxúria. Não sei o que diga...” – mais uma carta - “Uma casa...  ... já compraste casa, filha?” – Sara meneava a cabeça em que sim – “Olha, foge, foge para muito longe. Pega nesse rapaz pela mão e fujam. Eu não vejo outros rivais nos vossos corações mas vejo uma casa amaldiçoada e uma mulher de alma sombria. E um homem com muita inveja no coração. Tanta que essa sombra vos persegue. Foge, rapariga. Pede a esse teu noivo que te leve para longe. Para outra casa, outra cidade, onde ninguém saiba onde estejam. Longe desse homem e dessa mulher que ainda não têm rosto mas que em breve vos mostrarão quem são se não se salvarem. Filha, fizeram-te mal...” - Um homem e uma mulher...  ... sabia que sabia meia resposta. O Rui, só podia ser ele. Não que não a espantasse a ideia de que ele pudesse ser tão doentio. Bruxarias? Desde sempre ouvira falar de tais coisas, fotografias cozidas em linha, coladas com sangue e cuspo e esperma, medas de cabelo regadas com aguardente, galinhas decapitadas nas encruzilhadas da mata, água de cu lavado, jogos do copo e cofres abertos, que mais? Não sabia. E não sabia que alguma vez esse imaginário que lhe parecia tenebroso lhe batesse à porta. E no entanto, agora, a mulher com traços de lápis no lugar das sobrancelhas dizia-lhe que um amor desprezado a encomendara e ela apenas conseguia pensar naquele par de olhos de desejo e raiva e tristeza. Os olhos de Rui. Não lhes conseguia encontrar maldade. Era antes um misto de obsessão e deserto. Ainda assim, sentia calafrios na forma como era olhada, como só pelo olhar a pudessem raptar da sua felicidade. Os olhos gulosos de Rui que lhe seguiam os movimentos, parado dentro do jipe enquanto ela se apressava a desaparecer para lá da porta do café. E os olhos do avô a chorar aos pés da sua cama. Sonho estranho em que as paredes se vestiam de bolor e se despiam de tudo o resto. E no entanto, sobre si, de novo na parede um retrato em que tem catorze anos, com o dom de fazer chorar. Um retrato que devia estar escondido atrás do armário. Mas não está, está na parede e o sorriso triste trás as lágrimas a Sara. O avô nada diz, só soluça, como se nem a visse, ajoelhado numa prece. A recordação do sonho é só em si um calafrio e por isso Sara quer abstrair-se da armadilha destas divagações. Melhor voltar à varanda soalheira sobre o mar da Ericeira. Melhor ainda, ir almoçar e procurar na conversa de um qualquer distracção para os seus pressentimentos mais macabros.


Sweet dreams are made of this
Who am I to disagree?
I travel the world
And the seven seas--
Everybody's looking for something.
Some of them want to use you
Some of them want to get used by you
Some of them want to abuse you
Some of them want to be abused.

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