domingo, 23 de setembro de 2012

Solidões cruzadas - A Guilda dos Melancólicos - Anjos e Homens - Parte II

Um sumo e uma sandes ao balcão. Depois visitará o Rogério. Dali ao Hospital Polido Valente, até às três, tem com certeza tempo. Recentemente sente que tem mais do que tempo. A Pedro, na perda de Sara sobrou todo o tempo do mundo. É por isso que gosta das horas em que anda na rua e se sente menos só. É preferível estar na Policia Judiciária a fazer figuras de burlão do que estar sózinho, a tentar perceber o que aconteceu ao futuro que já não tem. Porque durante o dia consegue-se abstrair da noite que o espera. Às vezes até gosta de acordar e pressentir a azáfama de mais uma jornada. Tomar um banho, escolher um fato que o faça sentir-se bem e pensar na agenda do escritório. Por segundos, às vezes apenas por segundos, tem a ilusão de que recuperou o sorriso. Outras vezes não. São os dias, quase todos, em que acorda para numa questão de segundos se recordar do vácuo que se sente e pensar que quereria dormir de novo para ser algo em sonho ou mesmo nada ser. Os piores despertares são aqueles em que tem a clara sensação de ter sonhado com Sara, com o passado, com o futuro, com o presente perdido, sabe lá. Aí custa mais passar da realidade sonhada ao pesadelo da rotina. Abre os olhos e esperança-se de que se os fechar de novo volte o sonho, quem sabe volte Sara. Que importa que já é dia…? É talvez por isso que Pedro gosta de caminhar pela cidade. Não sabe se aperceber-se da vida que existe nos estranhos que passam o console ou aflija. Mas tudo é melhor do que a sua recente solidão, sem os pais, sem Eduardo, sobretudo sem Sara. – “Bah, fuga para a frente, Pedrinho, para a semana mudas-te.” - “Moço, é uma água.” - a primeira coisa que despertou a atenção a Pedro foi o sotaque adocicado de brasileira. Mas depois de que olhou a mulher que se chegara ao balcão, do lado oposto, ficou pasmado. Os olhos fitaram-se naquele semblante fechado, sem poderem crer que pudesse novamente repetir aquele encontro. – “Que foi, nunca viu não?” – É para ele que a mulher fala. Pergunta seca, e embaraço de Pedro que cora. Sente sobre si o olhar dos poucos clientes que comungam daquela hora morta de um snack-bar na Gomes Freire. A brasileira pega na garrafa e regressa à mesa. Pedro primeiro não soube muito bem o que fazer ou dizer. A sua timidez natural impedia-o de proferir, pelo menos de reflexo imediato, a pergunta que tem colada ao céu da boca. Por segundos baixou os olhos. Todos o devem olhar. Que embaraço. Morde a sandes pensativo enquanto se intriga com o inusitado daquele encontro. Por fim, é de rasgo súbito que o faz. Sabe que se pensar demasiado desistirá e sairá a porta, mudo. Por isso contorna o balcão e aproxima-se da mesa onde a rapariga retém o olhar parado algures entre a desatenção ao jornal, o café e o vazio. – “Desculpe...” – Luna levanta os olhos surpreendida. Pedro apressa-se a falar em antecipação à eventual resposta rude que trucide o que ainda não disse – “Lamento há pouco... ... estar a fixá-la. Distraí-me a pensar de onde a conheceria e nem me apercebi. Não quis ser inconveniente. Lamento...” – “Mas a gente se conhece?” – Luna olha Pedro, erguendo mais os olhos que a cabeça. Que responder? O rapaz olha o chão. Sorriso amargo, piedoso, talvez seja isso. Sabe que tem o cérebro cansado demais por aqueles dias para dar uma resposta que seja mais pensada do que sentida. – “Se nos conhecemos...” – ergue as sobrancelhas - “É irónico, eu só queria que não pensasses mal de mim. E agora não sei que responda. Cruzámo-nos um dia destes, não importa.” - E virou costas para regressar ao resto do seu almoço. Talvez o tenha chegado a fazer. Mas depois estacou, a olhar a mulher num derradeiro momento de indecisão. Luna não sabia o que pensar daquele estranho que a fitava como se estivesse pintada de cores bizarras - “Eu não sei muito bem dizer estas coisas. Francamente, nem sei se as devia dizer. Mas olha, pensa o que quiseres. Algo de estranho me diz que não devo virar as costas e fingir que nem vi.” – os olhos dançam entre o encontro dos de Luna em expectativa e o vazio evasivo – “ Eu... ... eu lamento imenso o teu amigo...” - Pedro calou-se e ficou a fitar os olhos de negro liquido da rapariga, como se esperasse deles redenção de um pecado que tivesse confessado, ali e então – foram segundos, uma efémera fracção de segundos, para que os olhos se inchassem de lágrimas prestes a brotar – “Meu noivo... ... quem é você?” – a pergunta é quase de raiva, como que contra a audácia daquele estranho de esgravatar a ferida aberta. Por isso os olhos de Pedro de novo em fuga, para lá da montra, para a chuva e para as paredes da Judiciária, do outro lado da rua. E quando responde, pronuncia as palavras mais como se as abandonasse do que como se as dissesse, de olhos fixos num ponto distante e imprescutável - “Já alguma vez te perguntaste, no que pensarão as pessoas na azáfama na rua? Recentemente comecei a pensar mais nisso. Estarão intimamente tão tristes como eu me suponho? Sentir-se-ão sós como eu? À deriva? Assim de repente, eu sei, eu sei, nada disto que te digo fará nenhum sentido. Mas na verdade faz todo o sentido. Porque nada mais me moveria a estar aqui, a sentir-me meio tolo.” - encara-a de novo. Sorriso tristonho – “Chamas-te Luna, não é? Chamo-me Pedro.” - Luna está pasmada. Não sabe o que há-de dizer mas instintivamente convida o rapaz a sentar-se. Talvez não faça nenhum sentido deixar que aquele estranho de olhar vazio se sente na sua mesa. Mas para Luna já nada faz grande sentido. E até aquele homem despropositado será melhor que a solidão de mais uma tarde.


I lost my gun today when I left you and I'm the laughingstock of a lot of people. I wanted to tell you. I wanted you to know and it's on my mind. And it makes me look like a fool. And I feel like a fool. And you asked that we should say things - that we should say what we're thinking and not lie about things. Well, I can tell you that, this, that I lost my gun today - and I am not a good cop. And I'm looked down at. And I know that. And I'm scared that once you find that out you may not like me.

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