Nem sempre estiveras realmente solitária, embora sempre te tenhas sentido um pouco assim. A primeira vez que pudeste gozar verdadeiramente esse teu prazer não terias ainda 19 anos. Terminava a época intermitente dos dias nevados da rigidez do Colégio Lémania e anárquicos das férias em Minas e a filha do Embaixador Silveira ingressava na École de Beaux Arts d´Amiens. Como sempre, a contragosto do pai. Mas que fazer? Nas veias de Luna todo o sangue era Natália. Ora exuberante, ora melancólica mas sempre doce. Mística e destravada, um mistério para ele que era pai como fora Natália para o marido, até ao fim, quando a perdera. As duas mulheres exóticas que pincelavam cor no coração pragmático de Caio. Por isso cedeu à vontade da morena como cederia sempre. A vertigem da boémia estudantil de Paris. - “Ah, a Bolacha quer regar liláses em Montmart! La Bohéme, La bohéme..” – “Ah Pai, vai-te catar !“ – “E quem paga a aventura romântica?” - uma dentada no nariz e uma fuga com as saias coloridas a esvoaçar. Caio era quem assinava sempre o cheque, preferia fazê-lo: uma carteira vazia jamais deteria o coração rebelde da filha. A sua pequena Bolacha seria sempre igual a si mesma. Só que com fome, sem a mesada do pai, reflectia o embaixador divertido. Porque Natália e Luna eram de estirpe diferente da sua. Como se a árvore pudesse ter amado o céu e dessa união nascesse a Lua. E por isso a tinta da Montblanc de Caio Silveira embebia já o papel na garatuja rebuscada da sua assinatura. - “E aí, Bolacha, ça suffit?” – “Bien sûr Papa, je t’adore!” - Mais uma dentada no nariz. Careta deleitada – “Você já não é grandinha para me morder, não?” - “Ah, pai...” - Riso e fuga. A saia colorida esvoaça.
Paris! Um apartamento partilhado com Melinda, uma sueca de hábitos estranhos e namorados ainda mais estranhos. Durou pouco a parceria. Dentro em breve Melinda sairia para ir viver com Ewan, o irlandês com cara de borracho. Tanto melhor, isentava-se Luna da histeria da outra na cama que as paredes não calavam. - “Já sei como se fode em sueco” - pensava divertida. O rombo orçamental da outra metade da renda era questão que se resolveria. E enfim, conquistava-se a liberdade total de Luna para contemplar o seu silêncio! Por outro lado, pela primeira vez, a enfant terrible da selecta Lémania apaixonava-se pela Escola. E por Paris! Primeiro Paris, depois as deambulações estenderam-se nas viagens de Luna pela Europa, pelo Mundo e por si mesma. Pintar Paris, fotografar o Mundo, degustar a vida. Da Luna criança emergia a Luna mulher. As mãos que moldavam o traço e o barro e descobriam o seu corpo no corpo do outro. Explorar os sentidos, na realidade tudo se resumia a isso, sobre o cavalete, na cama, pela lente da Nikon. Amar a vida e sugar-lhe o tutano. Não havia outro caminho. A maconha que traficava de Poços de Caldas, nos bolsos dos jeans, o tinto de Bordéus que aprendera a ter sobre a bancada da cozinha e a cocaína que em dias perdidos se esfumava do espelho nas festas até ao nascer do dia. Luna viajava e alucinava. Usava lentes para filtrar o mundo pelo prisma do sublime, não para o destruir. Por isso não se perdia na vertigem.
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