quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Luna em viagem - A Guilda dos Melancólicos - A Senda de Luna - Parte V


Nem sempre estiveras realmente solitária, embora sempre te tenhas sentido um pouco assim. A primeira vez que pudeste gozar verdadeiramente esse teu prazer não terias ainda 19 anos. Terminava a época intermitente dos dias nevados da rigidez do Colégio Lémania e anárquicos das férias em Minas e a filha do Embaixador Silveira ingressava na École de Beaux Arts d´Amiens. Como sempre, a contragosto do pai. Mas que fazer? Nas veias de Luna todo o sangue era Natália. Ora exuberante, ora melancólica mas sempre doce. Mística e destravada, um mistério para ele que era pai como fora Natália para o marido, até ao fim, quando a perdera. As duas mulheres exóticas que pincelavam cor no coração pragmático de Caio. Por isso cedeu à vontade da morena como cederia sempre. A vertigem da boémia estudantil de Paris. - “Ah, a Bolacha quer regar liláses em Montmart! La Bohéme, La bohéme..” – “Ah Pai, vai-te catar !“ – “E quem paga a aventura romântica?” - uma dentada no nariz e uma fuga com as saias coloridas a esvoaçar. Caio era quem assinava sempre o cheque, preferia fazê-lo: uma carteira vazia jamais deteria o coração rebelde da filha. A sua pequena Bolacha seria sempre igual a si mesma. Só que com fome, sem a mesada do pai, reflectia o embaixador divertido. Porque Natália e Luna eram de estirpe diferente da sua. Como se a árvore pudesse ter amado o céu e dessa união nascesse a Lua. E por isso a tinta da Montblanc de Caio Silveira embebia já o papel na garatuja rebuscada da sua assinatura. - “E aí, Bolacha, ça suffit?” – “Bien sûr Papa, je t’adore!” - Mais uma dentada no nariz. Careta deleitada – “Você já não é grandinha para me morder, não?” - “Ah, pai...” - Riso e fuga. A saia colorida esvoaça.

Paris! Um apartamento partilhado com Melinda, uma sueca de hábitos estranhos e namorados ainda mais estranhos. Durou pouco a parceria. Dentro em breve Melinda sairia para ir viver com Ewan, o irlandês com cara de borracho. Tanto melhor, isentava-se Luna da histeria da outra na cama que as paredes não calavam. - “Já sei como se fode em sueco” - pensava divertida. O rombo orçamental da outra metade da renda era questão que se resolveria. E enfim, conquistava-se a liberdade total de Luna para contemplar o seu silêncio! Por outro lado, pela primeira vez, a enfant terrible da selecta Lémania apaixonava-se pela Escola. E por Paris! Primeiro Paris, depois as deambulações estenderam-se nas viagens de Luna pela Europa, pelo Mundo e por si mesma. Pintar Paris, fotografar o Mundo, degustar a vida. Da Luna criança emergia a Luna mulher. As mãos que moldavam o traço e o barro e descobriam o seu corpo no corpo do outro. Explorar os sentidos, na realidade tudo se resumia a isso, sobre o cavalete, na cama, pela lente da Nikon. Amar a vida e sugar-lhe o tutano. Não havia outro caminho. A maconha que traficava de Poços de Caldas, nos bolsos dos jeans, o tinto de Bordéus que aprendera a ter sobre a bancada da cozinha e a cocaína que em dias perdidos se esfumava do espelho nas festas até ao nascer do dia. Luna viajava e alucinava. Usava lentes para filtrar o mundo pelo prisma do sublime, não para o destruir. Por isso não se perdia na vertigem.


Souvent il m'arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d'un sein
Du galbe d'une hanche
Et ce n'est qu'au matin
Qu'on s'asseyait enfin
Devant un café-crème
Epuisés mais ravis
Fallait-il que l'on s'aime
Et qu'on aime la vie


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