A família reúne-se na sala-de-estar. Na expectativa do que o filho diga, sentam-se nas poltronas e olham-no, enquanto este passeia junto à lareira, num compasso de espera de actor no instante antes que o pano desnude o palco. Fechado no quarto, encenou naquelas horas o que poderia dizer, constrangido pela demora dos convidados que demoravam a abandonar a mesa de festa. A conversa com Hugo dissipara a possibilidade, a réstia de esperança que tinha, de que tudo pudesse ter uma explicação razoável. E portanto era tempo de colocar pai, mãe e irmão, ao corrente de todos os factos. Não sabia muito francamente que reacção teriam, porque nem ele próprio sabia o que sentir. O seu coração não acreditava que Sara pudesse ter feito semelhante coisa como usar abusivamente o nome da mãe para obter aquele dinheiro. Mas à sua racionalidade exigia-se-lhe que não descartasse a possibilidade. Afinal, que linhas estaria Sara disposta a violar pela família? Mas e depois também não lhe parecia muito menos inacreditável que quem quer que fosse na família da namorada pudesse envolver-se numa coisa daquelas. Dez da manhã do dia seguinte. Mais uma eternidade até saber mais, toldada pelo cansaço físico em paradoxo com o hiper-acção intelectual que lhe fervilha no espírito. - “Bom, quero começar por dizer que tenho uma coisa grave, até que ponto, não sei eu próprio, para partilhar convosco. A mãe já tem uma vaga ideia do que se trate porque sabe o início da história.” - a gravidade desenha-se agora no semblante de todos. - “Falaste com o Hugo?” – “Falei, Mãe. O caso é este: não quisemos contar logo o que fosse porque quisemos perceber as coisas para não criar falsos alarmes. A mãe anteontem recebeu uma carta de dívida bancária em que lhe era imputada uma dívida de cerca de cinco mil contos. Como a coisa não tinha ponta de lógica, decidimos contactar o Banco. Eu tinha audiência pelo que pedi ao Hugo que usasse um contacto dele. Bottom line, a dívida existe. É um empréstimo que já foi maior mas que até agora foi cumprido. Só que o devedor deixou de pagar e a mãe, que de facto está declarada como avalista é por isso interpelada. Além disto tudo, o mais estranho é que a devedora...” - Pedro fez uma pausa. É um orador teatral. Portanto nem no seu próprio drama deixará de o ser. - “... é a Sara...” – O progresso da narração fora encrispando os rostos, sobretudo o de Álvaro, homem temperamental e que partia na desvantagem da surpresa total. Mas o nome de Sara esse caiu como uma bomba que desvastasse as suposições de qualquer um deles. Silêncio total. Pedro lê o desconcerto em todos os rostos como horas antes Hugo lera, adivinhara-o, no seu próprio semblante. - ”Sim... É só?” – A pergunta do pai é ríspida, impaciente - “Não, pai. O Hugo marcou-me uma reunião com o Departamento de Contencioso do Banco, eles gostariam de falar-me sobre o caso. Mas eu acho que devemos ir todos. Afinal a mãe é formalmente a visada e eu não tenho de todo a frieza de ir lá como advogado. E depois a Sara. Deixem que vos abra o coração. Não sei o que pensar. Bem sabem o que sinto por ela. Mas vocês são a minha família e eu nem quero pensar se...” – o queixo treme-lhe e a voz perde-se numa flauta débil. Uma lágrima corre. Tapa o rosto com as mãos em concha. - “A Sara, filho? Não acredito que...” - “A Sara não tem nada ver com isto.” – Álvaro intervém enérgico. O timbre é frio e os olhos cinzentos faíscam o que a Sofia viu tantas vezes ao longo de tantos anos. Chama-se ódio. - “ A dívida inicial ronda os cinquenta mil Euros e o empréstimo é algures no início do ano passado e foi feito no Banco da mãe dela. É ou não é?” - Nova surpresa. Assim é, com efeito. - “Pai, mas como é que tu...” – O enigma complica-se. Até Eduardo, o eterno tranquilo, se assombra sem perceber aquela intricada associação de peças de um puzzle em que só ele parece não acrescentar nada - “Há meses a mãe da tua namorada procurou-me. Estranhei quando a Carla me comunicou uma chamada dela. Pediu para me ver nesse mesmo dia e eu acedi. Recebi-a na Lupus. Vinha muito nervosa. Tremia por todo o lado. Pediu-me dinheiro emprestado. Cinquenta mil Euros! … … assim, sem tirar nem pôr, como quem me pede cinquenta. E com urgência! Bom, em circunstâncias normais convidaria qualquer um que me abordasse assima meter-se na rua. Só que era a mãe da namorada do meu filho. Nem sabia muito bem o que dizer. Não era o pedido. Nem sequer era o montante. As pessoas tiram senha para favores e cunhas e isto e aquilo. Mas a mãe da Sara… … não podia estar mais espantado. Contou uma grande história. Sempre nervosa, a acender um cigarro no outro. Que a empresa do marido estava mal e que ele não tinha mãos nenhumas para gerir aquilo, que se deixara enterrar e não sei o quê… … e que para salvar aquilo precisava de uma reestruturação urgente. Precisava do dinheiro no espaço de um mês.” - ”Não me contaste isso...” - ”Acabei por concluir que nem valia a pena. Respondi-lhe que era muito dinheiro, como ela devia compreender. E que mesmo que estivesse disposto a ajudá-la, quereria falar contigo e com os miúdos sobre o assunto. Aliás, disse-lhe que, a acontecer algo, deveria ser assente numa reunião entre ambas as famílias, porque no fundo, a podermos ajudar, justificar-se-ia por essa ligação. E a gaja fica-me ainda mais nervosa. Que não, que não podia contar a ninguém, tinha que ser algo sigiloso entre nós os dois. Aquilo soou-me muito mal. Disse-lhe que não, que de tal forma jamais concordaria em ajudar. E pouco mais do que isso se passou. Saiu com a velocidade e o nervosismo com que entrou, insistiu no sigilo do assunto e nunca mais ouvi falar dela. Lembras-te de ter perguntado uma vez como ia a empresa do pai da Sara, Pedro?” - “Sim, acho que sim… … mas que história... ... a Dona Marília, mas porque raio...?” - “Não sei. Mas foi ela. Não conseguiu o que queria pela frente, furou por detrás. Falsificou um empréstimo. Os papéis do teu empréstimo da casa. Onde é que está o empréstimo da casa?” - Um Pedro estarrecido. Tudo toma lógica. Uma lógica feia de uma mentira enorme - “Não há empréstimo da casa, pai. Nunca houve. O empréstimo tardava em ser concedido porque nunca foi colocado. E nunca foi colocado porque os nossos documentos serviram justamente para esta fantochada. Para que o nome da mãe servisse de aval…” – está estarrecido com as conclusões a que chega. Perceber uma verdade que deita por terra alguns fundamentos do nosso mundo é como uma vertigem. Rodopiamos. E não é, nem de perto nem de longe, no primeiro instante que nos apercebemos da moldura de devastação que se gera em torno de nós. Nenhum deles estava por ora pronto para perceber o todo, para encaixar todas as peças, para intuir todas as consequências que inevitavelmente sucederiam. Em torno de um anjo que gira sobre si mesmo, os Lobos entreolham-se com a expressão de incredulidade. Em Pedro, talvez mais, no olhar espelha-se um vento de abismo. As lágrimas principiam a correr-lhe a face, a lavar-lhe as olheiras, e a saborear-lhe os lábios - “Pedro…” - “Perdi a Sara, mãe. Está tudo perdido.” - “Pedro, não acredito que a Sara…” - “Não mãe, a Sara é inocente. Mas… … vou perdê-la.”.
Tonight, do we have to fight again?
Tonight, oh I just want to go to sleep
Turn out the light but you want to carry grudges
Nine times out of ten, well I see the storm approaching
Long before the rain starts falling
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