Três horas. O escritório está vazio. Hugo ainda não chegou. Pedro é em regra pontual mas hoje estacionou na garagem com quinze minutos de antecedência. São três horas. Um pouco mais. Hugo não está verdadeiramente atrasado. Mas irrita-o que logo hoje o amigo não pudesse chegar pontualmente, pontualidade científica, aquela que supera a britânica, por uma vez! Entra no seu gabinete. Liga o computador. A rotina de início do Windows não chega a terminar antes que Pedro desligue a máquina no botão “Power”. Para quê ligar o computador? Não veio ali para trabalhar... ... mas… … enquanto espera pode navegar na net. Fará isso, matar tempo. Quando tenta ligar de novo a máquina, o monitor informa-o que por encerramento anormal fará uma rotina de segurança, enquanto que uma barra de progressão se desenha lesma na parte inferior. Pedro infla as bochechas de impaciência enquanto que bate as nozes dos dedos no tampo de nogueira. Exasperação. Apetece-lhe gritar. Mas finalmente ouve a chave de Hugo esgaravatar a porta de entrada. O amigo assoma ao seu gabinete e faz-se entrar. Atira a gabardina sobre o sofá de canto e esfrega o cabelo revolto. - “Pá, ontem liguei para o Martim, o gajo do Banco.” - Senta-se na cadeira, do lado oposto da secretária e acende um cigarro em compasso. Pedro recosta-se e tenta manter a compostura, com os dedos em posição de prece, como se habituou a fazer quando ouve um cliente, sentado naquela mesma cadeira de pele negra. Hugo fala num tom agitado e brusco, como é seu timbre. – “Aquilo é um processo de empréstimo e a tua mãe não é de facto a devedora principal. Só que as prestações deixaram de ser pagas e a tua mãe está por detrás como avalista.” – Pedro enrola o rosto numa careta - “Avalista?” - “Pá… … a devedora é a Sara.... ... o Martim disse que o processo é para levar para a frente. Eu expliquei-lhe por alto da tua família, quem era o teu pai, a tua mãe e... - “Arranja-me um cigarro, Hugo.” – o do cabelo eriçado faz uma pausa e estende o maço ao amigo. - “ ... e disse-lhe que vocês estavam espantados com aquela carta. Que a tua mãe não sabia de nada. Que a devedora era a tua namorada mas que a única coisa que deveria existir era um crédito à habitação. E ele disse que gostava de ter uma reunião contigo amanhã.” - Cala-se. Pedro reflecte, por um segundo calado, olhando o vazio à sua direita - “A Sara? Epá, mas essa merda não tem ponta de lógica! Um empréstimo da Sara?! Alguns cinco mil contos, e a minha mãe como avalista?!” - “ Eram mais, espera, apontei.” - Hugo sai e volta passados segundos com um post- it entre os dedos. - “ Dívida inicial de cinquenta mil Euros em Abril de 2003, dia 11. Prestações de mil e quinhentos Euros, mês. Foram pagas as prestações todas até Novembro e feitos alguns abates extraordinários. Até à data limite da prestação de Dezembro não foi entregue o capital e dia 29 sai a carta de contencioso.” – Pedro apoia as mãos sobre a mesa. A cara permanece retorcida da estupefacção do que ouve mas agora esboça um sorriso. Foi sempre humorado. E a bizarria tem graça. Talvez seja isso. - “Hugo... ... são dez mil contos. São prestações de trezentos contos mensais. Porque raio a Sara... – “Já pensaste que ela e a mãe possam estar nisto para vos sacar dinheiro? Pá, a tua família tem dinheiro...” - “Mas foda-se pá! É a Sara, cresci com ela! Conheço a família há quanto tempo? Mais de dez anos! Tu conheces a Sara, pá! Não pode ser! Supõe que tens razão, para que é que ela queria a merda de dez mil contos? E como é que pagou as prestações anteriores? A Sara tem a vida que tu sabes, o ordenado do hospital, as consultas...” – “E a família?” – Pedro pensa por um instante - “A família... ... a Sara meter-se nisto por dinheiro para a família...? Epá, não o faria. Eu conheço a Sara. Talvez falasse comigo. Talvez falasse com os meus pais. Mas não se metia num esquema destes. Nem saberia fazer isso. Como é que o nome da minha mãe ali aparecia?!” - “A mãe dela...” - “Mas não! A Sara não se metia nisso. Não a Sara. E depois a família da Sara é normal pá! A Dona Marília está bem no banco, o pai dela é um gajo trabalhador, têm o negócio. Uma vida confortável mas simples! Não tem lógica nenhuma, absolutamente nenhuma” - “Situação do caralho, Pedrinho... ... e agora?” - “Pedro arregala as sobrancelhas - “E agora... ... primeiro falar com os meus pais. Amanhã ir à tal reunião.” - Hugo faz deslizar o post it sobre a mesa - “Tens aí o contacto.”- Pedro lê o nome - “Martim Gonzalez” – Às dez da manhã lá estará. Afinal a ansiedade não se desfez como pensara. - “Estás com umas olheiras do caralho, pá. Dormiste alguma coisa esta noite?” - Pedro meneia a cabeça em negativa - “Ouviste aquilo do Lux?” - “Foda-se, é verdade, tu estiveste lá! Viste?!!” - “Foi na minha cara, pá… … espirrou sangue em cima de quem estava à volta. A Sara é que arrastou a desgraçada de lá.” - ” A desgraçada?” - “... a moça que estava com ele.” - “C’um caralho...” – Hugo veste o sobretudo - “Vai dormir, amigo ...” - “Vou, espera, saio contigo. Tomamos um café?”
New blood joins this earth
And quickly he’s subdued
Trough constant pained disgrace
The young boy learns their rules
Sem comentários:
Enviar um comentário