quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Planos sobrepostos - A Guilda dos Melancólicos - As horas brancas de Pedro - Parte VI


O mostrador digital do Opel marca meia hora volvida sobre as quatro da tarde. O primeiro dia do ano de 2004 é um dia cinzento de nuvens espessas que divorciam Lisboa do Sol. Pedro cruza a Ponte sobre o Tejo. A estrada está deserta de trânsito, como sempre sucede quando é Ano Novo e as famílias almoçam no recato das sombras de cimento que constroem a urbe. Pedro conduz o carro por instinto, perdido que vai nos seus pensamentos, sem saber que um anjo viaja ao seu lado e contempla esta cidade que ele próprio só vira imersa nas trevas da tempestade da noite anterior. Naquelas horas, a centelha magnetizara-o já desnorteado em tantas direcções! Não é só Pedro quem tem um enigma. Ele que é anjo também tem vedado o fio condutor desta fábula que lhe é dada a conhecer mas, pelo menos por ora, sem perceber o porquê que Deus guarde para si. Haja um... … A mulher de cabelo negro acossada a um canto com o cabelo empapado no sangue do amante. E este homem de rosto de miúdo que cava nas órbitas as olheiras pálidas da sua angústia. E a loira de rosto polvilhado de sardas que sonhou toda a noite que o Diabo lhe tomava o corpo e depois a cuspia na sarjeta, enquanto, na cama ao seu lado, uma menina de cabelo em canudos dormia num sorriso de sonhos bons. E aquele carro capotado de onde sob os holofotes os bombeiros retiraram o corpo moribundo e ensanguentado de uma mulher jovem de longo vestido azul. E a morena solitária que, ao bater das doze badaladas, soprava uma vela sobre um bolo e levantava os olhos ao céu sem estrelas, numa prece de renovação. E a família que abriu champanhe num abraço terno entre pai, mãe e filho. O Anjo baixa os olhos para a centelha no seu peito. Por ora arde amena. Sabe que o punhal já desferiu o seu golpe. O ferro nem sempre arde assim que corta. Mas está lá a rasgar a carne. Agora é esperar que o sangue goteje no chão.


A dor, sob suas múltiplas formas, é o remédio supremo para as imperfeições, para as enfermidades da alma. Sem ela não é possível a cura.


Sem comentários:

Enviar um comentário