quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Cartas marcadas - A Guilda dos Melancólicos - Castelos de Cartas - Parte IV

“É cancro, António. Desculpa...” - Luísa baixa o rosto e é certo que chorará.. Dizer tal coisa ao marido custa-lhe mais agora do que aquilo que lhe custou ouvir ela própria da boca do médico a notícia. Como se lhe confessasse que o vai trair. De alguma forma vai. Estão juntos há tantos anos, sempre lá um para o outro. E agora sabe que o deixará. Morrer deve ser bem mais leve do que não morrer e ficar por ali a sentir o peso insustentável do vazio do outro. No coração de Luísa a partir de hoje a vida é uma contagem descrescente. Deus! Poderá o marido ter essa noção? E César? Luísa, quer ver o filho. Vai perder toda a sua vida e de hoje em diante todos os segundos interessam. Que raiva, Luísa. Cerra os punhos e cerra profundamente os olhos por um instante, a dizer às lágrimas que não as quer. - “Leva-me para casa.”



A agenda eletrónica do telemóvel de Sara acha o namorado em “A” de Amor. Deixa que a ligação se concretize, enquanto caminha o jardim na direcção do estacionamento. - “Olá desaparecido...”- o tom é terno - “Sara, onde estás?” - “Que se passa? Que voz é essa, môr? Olha levas-me a jantar fora e ao cinema, sim?” - mas do outro lado um timbre inquieto, com algo de desnorte responde que precisam muito de falar. Mas falar do quê? Algo com a casa? Está tudo bem entre eles? Aconteceu alguma coisa? Sara protesta que assim se preocupa. Pode já dizer o que é, não?! Mas não, a tudo Pedro diz que não. O tom grave e misterioso empraza a ansiedade que cresce em Sara - “A sério Sara, vem ter comigo.” - e Sara assim faz, o seu carro arranca para a cidade marginal da Doca de Santo Amaro, no preciso momento em que o céu cinzento se transveste de novo em chuva.



Luz branca. Depois a claridade dilui-se num enfoque de amarelo quente no fundo. Amansem-se as contra-luzes. - “Fred, diz-me quando estiver alinhado.” – Equilibrando-se no escadote com uma mão, a outra limpa o suor da testa e depois coça a barba de vários dias. Pensa que está quase como imaginou quando fez o desenho de luz. Provavelmente hoje termina. Ao fundo da sala, na cabine de luzes, Fred faz-lhe o sinal de “telefone” - e depois pode-lhe ler nos lábios, que enfatizam a dicção para que seja preceptível: - “O teu pai.”



Sara bate com as nozes dos dedos no vidro do veículo estacionado e Pedro desperta meio sobressaltado das suas divagações. Com um gesto de mão em aresta pede-lhe que baixe o vidro. Um beijo. Depois contorna o Tigra numa corrida e entra pela outra porta. - “E então, amor...” – o rosto de Pedro mantém-se ligeiramente inclinado, olhos fixos no painel de instrumentos, as sobrancelhas enrugadas, os dentes a morder o lábio inferior. - “O que é que me queres contar? Amor...? Fala comigo…  ... que ar triste é esse?” - os seus dedos longos procuram o cabelo do noivo – finalmente Pedro sai do seu mutismo. Olha Sara com o olhar pesado e afasta-lhe delicado a mão que se lhe espalhava pela face em afago - “Eu tenho que te contar algo. E, francamente, não sei como Sara...  ... estou tão triste...” – o rosto da namorada surpreende-se e o sorriso terno desvanece-se – “Passa-se algo. Já não gostas de mim. É isso, não é? Eu sinto que andas diferente” - Pedro exalta-se. Agora as suas mãos encarceram as dela e as palavras são-lhe ditas tão colados os rostos que um pouco mais e seria um beijo. – “Sara, nunca digas isso! Foda-se, amor, nunca mais digas isso. Eu gosto tanto, mas tanto, tanto de ti!” - É quase um grito. Pelo menos, ali naquele plano daqueles lábios que a proximidade desfoca, assim parece a Sara. Os corpos apartam-se de novo. - “Olha, por favor, sê sincera, aquela história da carta do banco, o que sabes sobre isso?” - “ Pedro, mas eu já te disse que a minha mãe na Segunda-fei...” - a frase morre sob o peso das palavras que a voz de Pedro dispara, cerrados que são os olhos e tempestade que é o peito - “Sara, a tua mãe na Segunda-feira não vai fazer nada senão tentar encobrir algo que eu já sei!” - o rosto sardento enfurece-se e o corpo refugia-se contra a porta numa mímica de repulsa. Por isso as mãos do rapaz se unem em sinal de prece e a voz se eleva. - “Ouve Sara, depois faz o que quiseres, pensa o que quiseres, mas por Deus, primeiro ouve-me! O que é que sabes realmente da tua mãe, da vida da tua mãe, da vida dos teus pais?” - “Mas estás a insinuar o quê, andaram-te a meter o quê na cabeça?! Quem f...” - Nova rajada sobre Sara. Ferirá de novo - “A tua mãe já não trabalha no Banco, está suspensa, sabias?” – Silêncio. A violência do silêncio. O que quer que Sara fosse a dizer antes congelou-se-lhe na garganta. - “O que é que... ... como é que... ... o que é que me estás a dizer?” - os olhos castanhos de Pedro refugiam-se agora no Tejo lá fora, para aliviar do peso da história que tem a contar, do olhar da namorada. - “Eu... ...era a última coisa que gostaria de te dizer na vida. Não sei como to dizer, até porque eu não sei porque é que... quer dizer o que eu descobri não explica o que é que...” - “ não te enroles. Conta tudo. Merda! Conta-me tudo! Mas que merda sabes tu? Que merda é esta?!” - Pedro atalha de novo, e agora as reticências de quem não sabe muito bem o que dizer, cederam às palavras rápidas. Talvez a dor não se poupe mesmo em rodeios de quem não quer admitir que vai doer. Que o penso anestésico de não saber se arranque rápido. Seja o que Deus quiser. - “A carta é de uma dívida de empréstimo bancário. Muito dinheiro. Dez mil contos. E supostamente foste tu que contraiste o empréstimo e a minha mãe é a avalista. Mas como deves calcular a minha mãe nunca deu aval a nada disto e não precisas sequer de me responder para eu saber que tu também nunca fizeste empréstimo nenhum. Só que o contrato de facto existe e está assinado. Uma assinatura falsa da minha mãe e uma tua. E eu francamente acho que a tua é genuína. Foi a tua mãe. E se isto não me chegasse para ter a certeza, saberia porque semanas antes deste contrato ela pediu esse dinheiro ao meu pai, com uma história estranha sobre o negócio do teu pai.” - “O negócio do meu pai?” - “parece que estaria mal. E a tua mãe queria tentar remodelar. Olha não sei bem. Uma história esquisita. Ainda por cima seria segredo. A tua mãe insistiu em segredo e o meu pai só agora nos contou por causa disto da carta. Eu não sei muito mais, só sei que a tua mãe está suspensa do Banco. Não sei detalhes. Estive lá hoje e fizeram-me imensas perguntas estranhas, sobre a tua família, sobre ti.” - “O quê?” - “Se vocês eram normais, se eu não achava estranho? O que faziam da vida, como viviam? Se vocês me pareciam ricos? Eu não sei muito mais. Mas tem que haver mais. Às tantas a advogada disse, foi exactamente isto - “Tinhamos esperança que nos esclarecesse mais. O caso que estamos a investigar é demasiado estranho.” - Não sei, Sara...” – Sara também não sabe grande coisa e olha no vazio. - “E tu, achas o quê de mim? Que fui eu? Que roubei a tua mãe...?” - “Não, já to disse. És a minha Sara. Não acho nada disso. Nem eu nem ninguém.” - “O lábio de Sara torce-se enquanto a primeira lágrima traça a pele sardenta - “Obrigado por gostares tanto de mim. Se calhar és o único, não é?” - Pedro abraça-a enquanto as lágrimas lhe ensopam o casaco do fato. Minutos longos. Os soluços de mulher e a bátega de chuva lá fora, enquanto que o fim do dia caminha para a noite daquela Sexta-feira. – “O que é que se passa com a minha mãe, Pedro?” – “Não sei, Sara, não sei…”



Há-de chover pela noite dentro. Isso pouco importa porque já decidiu que não sairá de casa. Nem para se prostituir com ratoeira armada nas luzes do sítio do costume, nem sequer para descer à Portugália e beber um martini, com a habitual rodela de limão. Há algo que se quebrou e Bruna desconfia de que sabe disso. Uma sensação inegável e nem por isso explicável de que não é por ali, de que a sua vida não é de todo por ali. Mas por onde? Por não fazer ideia do que fazer com o seu rumo, Bruna escolhe não escolher e dribla a decisão adiando-a. Por isso hoje, tal como ontem, fica sózinha na sala. De jantar rapará os despojos do bolo de aniversário de si para si mesma que ficaram sobre a mesa desde a véspera. Noite triste. Ontem Bruna descobriu que é a criatura mais só da cidade. Quando não se veste de puta não existe. No fundo ainda não tinha tido tempo para perceber isso, foi preciso o balanço sereno e deserto de soprar sózinha as velas do seu vigésimo aniversário. Há um ano dormiria a trespassar o dia, com o corpo cheio de analgésicos que lhe aliviassem a dor da tareia que recebera ao ritmo dos fogos lá fora. De alguma forma este ano foi pior do que aquela noite dormente de cama de hospital. É sempre pior quando esperamos algo e depois redundamos em profunda decepção do nosso sonho. Esse momento foi o da mensagem do Zé, que não viria porque não se conseguia livrar da mulher. Para Bruna não há tábua de salvação. Os clientes não são amigos. Nem pode dizer que o seja alguma das outras raparigas. E não há família nem quem quer que seja a quem possa ligar a dizer “Oi, é Bruna, você quer jantar cá em casa? É meu aniversário.”. Só Zé, a sua companhia, a única mão carinhosa que se estendeu. O único homem que a beija e não a monta como se fosse um animal. Mas Zé não viria. A mulher, como tantas vezes. Só que ontem Bruna fazia vinte anos e a solidão pesou mais do que seria costume. Esteve quase a colocar a pintura de guerra e sair. Cachaça para colocar um sorriso na noite. A conversa mole daqueles gajos iguais a si mesmos e o resto, porque não? Mas acabou por deixar-se ficar, a cantar a si própria os Parabéns, em tempo lento e desencantado de bossa nova triste no timbre de uma puta brasileira. Hoje está ali, na combinação cinza que não despiu desde a véspera. Mordisca o bolo desinteressada, bebe vinho e equilibra cartas ao acaso em castelo. Bruna sempre gostou de castelos de cartas. Com habilidade encontra o equilíbrio delicado de duas cartas que se seguram recíprocamente em contrapeso. Uma dama de copas de decote generoso e bochechas coradas da cor das pedras na tiara que se ampara numa carta de face oculta. A morena solta ao de leve o par e suspende a respiração por um instante, incerta de que sobrevivam à instabilidade natural da sua condição. Mais duas cartas negras de faces voltadas para a muralha exterior. E o castelo cresce. Carta após carta, numa teia de vermelhos e negros pincelados em armas de naipe em branco e texturas rendilhadas que velam a verdade de cartas que por ora viram as costas a Bruna. A qualquer momento tudo se poderá desmoronar deixando apenas uma pilha de cadáveres de baralho onde pereçam Reis, Ases e Duques. E é certo que, tarde ou cedo, isso sucederá. Mas por enquanto é apenas o segundo dia do ano, o primeiro depois do sopro numa vela solitária. Mesmo que a mais das vezes as esperanças redundem em nada, hoje Bruna abdica de vender o corpo para tecer castelos de cartas. E imaginar que estes pudessem chegar ao céu.


I know that the spades are the swords of a soldier
I know that the clubs are weapons of war
I know that diamonds mean money for this art
But that's not the shape of my heart

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