Filipa bate a porta e sai para as escadas. Umas escadas de madeira velha e arranhada que descem em quase espiral pelas entranhas exíguas do prédio. Salta o degrau partido, que do hábito já sabe que ali está, mesmo na penumbra. Às escadas só chega a luz do dia lá fora, a singrar a custo pelo interior claustrofóbico do velho edifício. Odeia tudo aquilo, morada nova em casa muito velha, numa rua inclinada a trepar a Graça das colinas de Lisboa. Irá descer até Santa Apolónia e daí apanhar o autocarro que a leve ao Marquês. Há um anjo que não se sabe muito bem se acompanha esse Pedro do semblante triste, e por acaso calhou atentar em Filipa. Ou então acompanhava Filipa e quando viu que o carro de Pedro subia a rua em sentido contrário achou que era tempo de mudar de rumo. Ou talvez tenha sido ao contrário, ou talvez nada disto tenha sucedido bem assim. O que é certo é que Filipa descia a rua pela calçada. Ao que vai, já lá iremos. E Pedro conduzia no sentido inverso e ascendente, na direcção de Sapadores. Vai ter com Luna. Tomarão o café da manhã nessa peregrinação corriqueira do Miradouro da Graça e depois sabe-se lá o que decidirão fazer. E o que é certo é que o calendário no dia em que tudo isso se passou assinalava o dia 19 de Dezembro, embora não seja certo que Filipa tenha retido a data e seja quase certo que Pedro e Luna talvez recordassem excertos desse dia no futuro mas sem que lhe atribuíssem uma data exacta.
Luna mora cinco números acima da nova residência dos Reis. Mas nenhum deles, nem Luna, nem os Reis, nem mesmo Pedro, têm consciência dessa coincidência curiosa, a atestar que o Mundo e Lisboa são pequenos. Na verdade, Luna nunca reconheceu daquela noite fatídica Sara nem Filipa. Muito menos sabe que o senhor de semblante triste e modos solitários que vê os jogos do Benfica no café da rua de cima é Mário Reis, pai de ambas. E também não é sequer absolutamente necessário que, algum dia, algum deles tome consciência de mais um acaso curioso de vidas que passam à queima-roupa, sem se tocarem verdadeiramente. Porque Luna saberá que Pedro chora quando se recorda de Sara, a moça que a arrastou do cadáver de João, que tem uma irmã chamada Filipa e a sua própria história de perda. Mas para lá disso, crê nunca ter visto depois nenhuma das moças, nem calcula que se cruza amiúde com elas na vizinhança. Elas que, claro, não se lembram, mais do que vagamente, de quem seja Luna. Embora saibam que Sara arrancou uma jovem brasileira dos braços de um cadáver, nessa festa de Ano-Novo, faz quase um ano.
Pedro guia entretido e cantarola os Maroon 5, a acompanhar o rádio. Depois, por algum motivo irrelevante, sente-se enfadado daquela música e o rádio muda para a TSF. – “O Bloco de Esquerda decidiu hoje que viabilizará um futuro Governo do PS e o seu Orçamento Rectificativo para 2005, depois das eleições Legislativas de 20 de Fevereiro, caso o PS vença o acto eleitoral antecipado. No entanto, os dirigentes bloquistas sublinham que…” – nova guinada no rádio. Mais música. Está bem humorado e pensa que será um dia bem passado. Nem se apercebeu ao passar por Filipa. Essa baixa os olhos ao chão, a fingir que encontrou algo. Para não ter que reconhecer ou ser reconhecida pelo rapaz que conduz no sentido ascendente. Estuga o passo. Comerá algo rápido pela Baixa. E depois? Irá andar. Precisa de andar. De se acalmar, de ganhar perspectiva sobre o caminho a que se predispõe. Já vai quase em Stª. Apolónia. E de alguma forma já vai quase lá, no passo sem retorno.
Sofia aspira fumo, enquanto confere o extracto no ecrã. O padrão salta-lhe à vista. Os levantamentos tantas vezes tardios, quase sempre avultados, tantas vezes naquela zona - “Merda, Álvaro, já nem disfarças muito. Houve tempos em que me deixavas poder não saber das tuas traições. Deves ter uma cabra nova. Sim, esta é novidade.” – Já há anos que não corre uma lágrima a Sofia por isso. Na verdade já há anos que não corre uma lágrima a Sofia. Não se sente morta. Mas sente que parte de si secou. É mãe, escritora, esposa. É um pilar daquela família. Mesmo para o marido. Nem sabe definir o que sente por ele. Resignação a que é aquela a sua vida. Ao início talvez tenha perdoado, querido acreditar, por uma réstia de amor. Ou então era já teimosia de não aceitar o seu falhanço. Talvez… … mas hoje é apatia, acomodação. A Ana diz-lhe que é cobarde mas ela não concorda - “Cobardia, Ana? E realismo, que tal te parece? Estou quase com cinquenta anos. Não tenho ânimo para lutar, muito menos para ficar só. Não sou como tu. Não consigo largar o homem que tenho porque também já não conseguiria procurar outro.” – e Sofia sai a porta da cozinha para o pátio, embalada nas suas divagações. Vai podar as roseiras. É o que lhe resta, toda a sua sensibilidade na qual sublima todo o amor que já não tem para dar, seca de não o receber. Só gostava de explicar a si própria porque insiste em querer saber. Porque procura as coisas que já não ferem mas ainda humilham. Se tem a certeza que nada fará… …é tarde de mais… … devia ter posto aquele grandessíssimo egoísta na rua a primeira vez que o apanhou. Mas isso foi há quase 20 anos. Agora já não é tempo de grande coisa. Resta podar as roseiras e pensar onde ir almoçar. Talvez vá ao Fórum. Almoça por lá e irá às compras. Ligará à Ana e por fim destilará a sua amargura nas suas páginas, quando não restar o que fazer em mais um dia.
My mamma done told me,
when I was in pigtails,
My mamma done told me, Hon,
A man is a two-face
he'll give you the big eye,
And when the sweet talking's done.
A man is a two-face,
A worrisome thing who'll leave you to sing,
The blues in the night
Dezanove! Tudo no Dezanove. As fichas batem no pano verde. Colidem entre si, rodopiam. Caras sem coroa. Aos tropeções até que caiam mortas ao cabo da mão as arrastar em penhor do 19. O palpite esganou Marília desde que o vislumbrou pela terceira vez nesse dia. Na sequência do calendário, na carreira do autocarro e no rodar do ponteiro dos minutos. E por isso fugiu do banco porque sentiu que nesse dia poderia ser bafejada pelo volte face da sorte. Hoje as fichas cairão todas no dezanove.
“Abro já o vinho…” – “Abre sim, para deixar respirar.” – “Tenho que te oferecer um saca-rolhas como deve ser!” – Pedro aguça o engenho com o velho saca-rolhas. Luna atenta os olhos no fogão, a esticar o nariz ao aroma do alho a fritar. – “Muito alho?” – “Muito! Que não te quero dar beijinhos.” – Arroz, água. E depois Luna faz o corredor na direcção da sala. Escolhe um CD de Lenine, abre uma gaveta do aparador tosco e retira incenso. – “Passa-me um cigarro.” – Pedro atira-lhe o maço, sem se mover de esparramado no sofá. – “Bora fumar um charro?” – “Pode ser depois do almoço?” – Sim, Luna concorda que é boa ideia. – “Ai Pedro, soube tão bem ir lá no Miradouro…” – Pedro meneia a cabeça que sim.
“Alô? Oi Filipe, está tudo bem com você? Hoje? Quando? Dá sim. Está óptimo. Estou-te esperando.” – Bruna desliga o telemóvel e devolve-o ao bolso dos jeans justos. Gosta de Filipe. Não está apaixonada, claro. Não poderia, Nossa Senhora a livre, mas Filipe é gentil, há dias que até a leva a jantar. Mais ninguém faz isso. Filipe é um cavalheiro, sim. A ele não lhe custa tanto vender o corpo como a todos os outros. E portanto não lhe custa tanto fazer contas de cabeça ao dinheiro que hoje Filipe lhe pagará. Mas gosta mais de passear pelo Shopping, sobretudo agora que toma o gosto de ter o seu dinheiro no bolso que compre muitos de tantos sonhos adiados toda uma vida. Pagar-se lanches, roupas, perfumes. Tanta coisa que uma Bruna pobre sempre cobiçou do lado de fora da montra, se ocasionalmente ia à cidade grande. Outras que até há tão pouco nem sonhava que existiriam. E por isso Bruna não se pode dizer que seja feliz. Longe disso. Mas está excitada de não pouca descoberta. É que Bruna não gosta de ser puta. Mas o sabor do conforto e o travo do luxo anestesiarão muita coisa.
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