O horizonte começa a clarear. Azul pálido a Este, que em breve será Sol em ascendente. De pé, sobre o muro de um miradouro para a cidade desde a Graça, um anjo cerra os olhos porque não precisa de ver para que a centelha do seu peito se deslumbre do dia que nasce. Aqui ainda é pouco mais do que noite. Abre os braços e sente a chuva que o vento bate. O corpo deixa-se cair, peso morto em queda deliberada contra o chão, tantos metros lá em baixo. Porquê? Talvez o Anjo queira saber como é cair, embora saiba que é apenas delírio e capricho de ente que pode ver mas não pode sentir. E por isso pouco importa a esta história o instante em que o corpo fantoche de queda de anjo arrebata o chão.
Ana abre os olhos.
Sara adormece por fim. As ideias transtornadas com as revelações traumáticas da véspera insistiram por longas horas na vigília de peito inquieto de quem se indaga se não será tudo um sonho do qual dentro em breve despertará. A mãe, não a consegue de todo reconhecer naquela loucura da véspera, na história incompleta mas indiciada nas revelações de Pedro, e na atitude tresloucada de animal acossado da mãe. Desilusão absoluta mesclada com incompreensão do muito que não tem por ora explicação. Filipa dorme tranquila na cama ao lado. De nada sabe. Felizmente que chegou depois de que se calaram os gritos na sala, com a mãe intrincheirada no quarto e pai e filha em conversa sussurrada. Chegou, desejou as boas noites e subiu. Precisará de saber? Talvez não. Provavelmente alguma solução se arranjará e talvez lhe possam poupar aquela vergonha. A sua mãe, a sua própria mãe engendrar tal coisa, envolver o nome da filha e da mãe do namorado, comprometer a compra da casa. Nem uma explicação. O facto é que dentro do pasmo do que descobrira esperava um fio de lógica. Uma justificação, uma resposta, algo que mitigasse o seu desnorte e aquela desilusão encetada de forma tão inesperada. Mas não foi assim. Quando confrontada com a pergunta do pai - “Em que é que tu andas metida, Marília?” – foi um olhar simultaneamente surpreendido de quem não esperava e de medo de quem conhecia a acusação melhor do que o inquisidor. Por isso a pergunta - “Estás a falar do quê?” - teve um sabor enorme a falso. A filha que entrava após o marido e fechava a porta atrás de si. Não deixavam dúvidas da emboscada – “Mãe, para quê o dinheiro?” - Marília desembaraça finalmente as agulhas de tricot que lhe abraçavam o pescoço e encrispa as sobrancelhas - “Mas o que é isto? Dinheiro? Sara...” - “O dinheiro que pediste em meu nome ao banco.” - Marília sorri e o rosto desagrava-se – “O empréstimo do teu carro? Transferi-o. Apareceu um juro melhor. Mas...” - “Os dez mil contos!” - a voz de Sara cresce em ira – “Os Dez mil contos dos pais do Pedro. Que pediste ao pai dele, em que usaste o nome da Dona Sofia.” – Marília transfigura-se. Marido e filha fitam-na, ambos de pé. Um longo segundo. Por enquanto ajeita o robe de lã ao peito generoso e compõe o cabelo com os dedos em pente. Consegue sorrir de novo como há segundos – “Mas que raio de histórias andaram vocês a ouvir?” - “Mãe, o Pedro esteve no banco com o pai. Eles já sabem de tudo. Como é que foste fazer uma coisa dessas?” - “E o teu emprego Marília? Porque é que estás suspensa?” - “Calem-se! Calem-se ambos!” - Marília levanta-se num impulso e grita, num misto de raiva e nervosismo. Aponta o dedo ameaçador ao marido e à filha. O queixo treme-lhe e o peito ofega. – “Eu não tenho que vos aturar. Não a vocês, já tenho problemas que cheguem. Estou doente, doente, percebem?” - Mário agarra a mulher firme pelos ombros e fita-a nos olhos - “Marília, temos que saber que pôrra se está a passar. O que a Sara disse é muito grave. Eu sou teu marido, tens que me contar o que é isto!” - Mário olha a mulher de sobre os óculos engachados no nariz e tenta controlar na voz o tom da calma - mas a mulher evade-se-lhe, sacudindo-lhe as mãos em fuga para a porta. – “Vais resolver o quê? Nunca resolveste nada na tua vida! Eu resolvo as minhas coisas, como sempre resolvi. As minhas, as tuas e as de toda a gente!” – Marília vai recuando. Olha alternadamente Sara e Mário que a olham incrédulos. Depois, abre a mesma porta que a filha fechara atrás de si e sai da sala. Lá dentro, pai e filha podem ouvir o som seco dos seus chinelos que correm escada acima. Mário quer seguir a mulher. Mas ainda não tem meio corpo fora da porta da sala quando ouve a chave girar na fechadura. – “Mas tu queres crer que ela se trancou?!” - o desnorte é dono do semblante de Mário. Já Sara, emana o que poderiamos descrever como uma serenidade triste. Provavelmente porque já chorou o seu quinhão de hoje no colo de Pedro. Os “porquês” que soluçou não encontraram resposta. E se não duvidava da verdade do que o rapaz lhe contava, também mantinha em si uma esperança vaga de que alguma explicação pudesse existir que lhe salvasse um coração prestes a despedaçar-se. Mas a mãe não tinha explicações para ela. Apenas palavras que cortavam e um olhar cheio de rancor como nunca lhe tinha visto. Não negava nada, não confessava nada, não explicava nada. Fugia deixando todas as perguntas sem satisfação – “Pai, ela fez mesmo aquilo...” - Mário senta-se no sofá e massaja as fontes com as pontas dos dedos, corpo inclinado quase sobre os joelhos – “Mas porquê, porquê, porquê?! Isto é de doidos! O que é que a tua mãe me esconde?! Terá algum gajo?” - o olhar que endereça a Sara é quase uma súplica - “Ajuda-me...”- e é curioso. Sara amava a mãe. Fascínio. Nem tanto se pode dizer pelo pai. É uma relação fria. Provavelmente ela não é o filho que ele sonhou e ele não é o pai que ela queria ter. Vantagem para Sara que sempre tem a mãe dos seus sonhos, a mulher que nunca deu machos para aprazer este pai. E é na génese por isto, mas por muitas outras coisas, que Sara não tem paixão por Mário. Se pensasse, saberia explicar, tim-tim por tim-tim, as suas razões. Mas não hoje, que se instalou a balbúrdia na lógica de fidelidades deste teatro familiar. A super-mãe está à beira do precipício da desilusão mais dolorosa da vida de Sara, a um passo de se empurrar a si própria. E esse pai duro e desinteressado de si diz-lhe - “Ajuda-me” - embora não seja esse o som exacto que sai dos seus lábios - “Pai, vamos tentar pensar os dois com calma. Falei com o Pedro e ele tem razão. Há que tentar ver o filme todo e pensar.” - “Sim, e então?” – “Primeiro ponto, o dinheiro, para que é que a mãe precisa dele?” - Boa pergunta Sara... ... quando nos refazemos do choque inicial, a ideia de que algumas pessoas sejam capazes de tanta coisa, torna-se-nos perfeitamente natural. O instinto de sobrevivência é um reflexo pragmático. Temos a vida toda depois para deprimirmos e desenvolvermos stress pós-traumático, psicoses, fobias e todas as patologias de que Sara leu nos livros e viu no olhar dos pacientes. Mas num primeiro momento não há tempo para reflectir na mesqunhez do que sobre nós se abate. Marília pode muito bem ter feito algo de muito, muito feio e é provavel que, mais tarde ou mais cedo, Sara tenha que fazer o balanço de fendas que isso traga à sua alma. Mas por ora há uma questão prévia que interessa esclarecer: porque é que Marília o fez? Pai e filha falarão em susurro ainda por mais de dua horas. Quase que se segredam para que a mãe não ouça. Não sabem eles que Marília se afundou num sono anestésico de Xanax. Filipa entrou, deixou as boas noites e foi para o quarto, alheada de tudo. Melhor assim. Entre Sara e Mário, ao calor da lareira, as hipóteses vão sendo jogadas sobre a mesa como cartas. Um amante que a explore, uma dívida secreta? Porquê? Negócios... ... saúde? Será? Nada parece ter uma justificação que se adivinhe, nem o dinheiro, nem a forma aparentemente desesperada de o conseguir, nem o secretismo de que Marília se rodeou. Primeiro foi a esperança de que Marília fornecesse a explicação. Depois Sara ainda se esperançou no pai. Era óbvio que não sabia de nada mas, talvez pensando, lhe ocorresse algo que fizesse sentido. Mas não. – “Olha lá, pai, estamos com problemas de dinheiro?” - Mário entrelaça entre si os dedos das mãos - “É a tua mãe que gere tudo, Sara. Mas não, claro que não. Há meses mais complicados, é como tudo. Mas nada que justifique isto.” - “Meses mais complicados?” - “Sim filha, bolas, o normal. Sei lá, liquidação de impostos, reparações de máquinas lá na oficina. A facturação nem sempre é alta. Olha, por exemplo, o teu portátil há pouco tempo. Meses mais à queima.” - “E a empresa...?” - “Que tem?” - Sara franze o lábio: “Quando a mãe foi pedir o dinheiro ao pai do Pedro disse que tinhas problemas. E, sei lá, a mãe às vezes comentava comigo...” - Sara hesita por um segundo.- “... que a empresa… … estava a render pouco, que a maior parte dos meses era o ordenado dela que aguentava a casa...” - “O quê?!” - no rosto de Mário há espanto total de quem descende à bruma do desconcerto - “Eu mato-me a trabalhar naquela filha da mã...” - “Quanto é que fazes por mês?” - “Oh Sara, sei cá eu! Recebo os cheques, faço os pagamentos, a tua mãe vai lá fazer a facturação ao fim-de-semana.” - “Por alto...” - “Xiça! Varia, não sei! Há meses de receber mil, mil e quinhentos contos. Outros menos. Os ordenados do Rui e do Santa. A renda...” - “Mas costuma dar dinheiro depois de tudo pago?” - “Pôrra, e eu ia trabalhar para aquecer?! Claro que dá! Sei lá Sara, na média. Pode dar quinhentos contos, mais, menos. Dá! Então não vês que tenho sempre trabalho?!”- O pai ganhava mais dinheiro com a oficina do que Sara alguma vez supusera. Também não era assunto que a interessasse muito. Mas tinha como mais ou menos adquirido que a família vivia sobretudo do ordenado da mãe no banco. Então porque diria a mãe que a empresa era um fracasso? Estaria o pai tão desorientado das suas próprias contas? - “Pai, eu para a semana vou contactar a tal advogada do Banco de que o Pedro me falou. É a forma de sabermos o que se está a passar e o que aconteceu afinal com o emprego da mãe.” - Mário acedia que sim. Por ora pouco mais podiam fazer. Estavam cansados, desorientados e desinformados demais para serem úteis a si próprios. Por grande que fosse a ansiedade, essa espera era a barreira intransponível por aquela noite.
Assim reflectiu Sara ao deitar a cabeça no travesseiro. Mas não consegue dormir e à medida que os olhos se habituam à luz diminuta, as trevas ficam depois penumbra e depois quase luz, a definir os contornos do quarto tranquilo. O portátil aberto sobre a secretária, as calças de ganga dobradas sobre as costas da cadeira, os livros em castelo sobre a mesa-de-cabeceira. Bernardo veio-se aninhar aos pés da cama. Também dorme. Mas Sara não consegue. Está triste, está preocupada e tem uma sensação psicadélica de sonho, pela catadupa inusitada de todas as revelações daquele dia. Mas a fadiga é um corredor de fundo da humanidade. Ao cabo dos minutos que se somem em horas, todos os medos e ansiedades e sonhos e desejos se vergam ao sono. E é aos primeiros raios da aurora, enquanto um anjo tenta aprender a cair, como vê suceder à sua volta, que Sara mergulha no sono. Como sempre, do outro lado do espelho, há de novo bolor nas paredes e o poster em que Pedro a carrega sorridente às cavalitas cedeu de novo lugar a um velho retrato com o poder misterioso de fazer chorar.
La fora estão os senhores da guerra
E cantam já hinos de vitória
Qual é a historia desta terra?
É o medo, ali mesmo
Cá dentro estão os homens á espera
Unidos no destino da terra
Já não há memória de paz na terra
É o medo, ali mesmo
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