quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Memórias antigas de uma puta nova - A Guilda dos Melancólicos - As putas - Parte I

Há determinadas coisas que não são feitas para estarem ao alcance da percepção dos mortais. Charadas matemáticas que Deus dissimula na engrenagem do Tempo. Como que lições de evolução e ocaso e ciclo. Sobretudo parábolas de humildade para quem as pudesse entender. O segredo da leitura desse evangelho secreto reside em algo tão simples quão indestrinçável. É uma questão de abstrair do que parece relevante no curso dos dias e atentar nas pequenas morais que trazem a leitura de traços comuns entre caminhos que só aparentemente podem nunca ter convergido. Mas já explicámos que os mortais raramente têm da ironia desses encadeamentos a consciência. E é portanto muito provavelmente por isso que reincidem em não se perceber a si mesmos. O Anjo, Guardião de tantas estórias, sabe-o. Mesmo quando o que sabe é amputado do que realmente interessaria para perceber uma génese e um fim, só pelo facto de perceber que eles existem, já o Anjo é maior que o Homem.
O Dia 19 de Dezembro foi um dia desses dias especiais. Um desses portais de convergência fugaz entre destinos transversais. E o curioso é que nem o Anjo entendeu completamente esta anedota de Deus, uma vez que que teria que ter chegado mais cedo e partido mais tarde para entender todo o divino sarcasmo que o caso encerrava.


 
Quando entendemos e aceitamos a ideia de sincronicidade, qualquer acontecimento pouco comum é um convite para parar e pensar. Podemos sentir que "algo está tentando nos dizer alguma coisa" e essa sensação aumenta com cada novo acontecimento nesse sentido. Ter consciência de que as coincidências acontecem connosco é o primeiro passo para que elas passem a acontecer cada vez mais.


 
Nesse dia Bruna acordou muito cedo. Pelo menos mais cedo do que o que fosse seu hábito. O despertador desatou-se numa berraria quando cruzou as dez e ela despertou estremunhada. Em todo o caso tinha dormido bem. Acordou, abriu os olhos em redor do quarto e esboçou um sorriso bonito, muito mais da Bruna menina do que da Bruna puta. É a primeira vez que desperta no seu quarto. Num quarto só seu de uma casa só sua. Enfim, não é sua, é apenas um velho apartamento arrendado numa Avenida decadente de Lisboa. Mas um dia... ... um dia terá uma casa que seja mesmo sua. Por ora, aquela sensação de afago das paredes em  que é senhora de si basta-lhe para que sorria. E por isso salta da cama, que lhe responde num rangido rezingão e entreabre a persiana. Lá fora espreita a azáfama da cidade. A Avenida Almirante Reis é uma artéria onde a manhã fervilha com um travo de antigamente. Velha, suja, veia da cidade que já foi nobre e agora é plebeia, num corropio de gente às compras pelas galerias dos prédios sujos de piso térreo em arcada. É ali que Bruna quer estar dentro em pouco. Tomar um banho, vestir uns jeans, uma malha grossa e ir pela rua. Entrar nos lugares, comprar hortaliças, fruta, café, carne, peixe. Que mais? Bruna nem sabe. A vontade entusiasmada turva-lhe a ordem de ideias. Mal pode esperar para ir sentir aquela manhã lá fora. Beber café e comer um bolo no snack-bar ao sair da porta. Mas o que é sobretudo importante que se entenda é que a morena quer isto tudo para se sentir normal. Ter dado o corpo ao velho médico da vila para pagar uma passagem de avião e os reais com que pudesse sobreviver tão longe por algum tempo, não é normal. E chegar a uma cidade para viver num quarto bolorento de velha pensão do Martim Moniz e sair as mais das noites para vender o corpo na Duque de Loulé e ser tratada como carne por um bando de homens díspares, nada disso é normal, quando se tem 18 anos e uma réstia de inocência no âmago. A pobreza, os trapos, a fome que não mata mas amarga, a família que se multiplica e se entulha num cubículo miserável, disso soube sempre. As outras garotas falavam da Europa, de Portugal, do outro lado do mar. Todos conheciam quem tivessem ido. Poucos tinham voltado, pelo menos que não fosse para partir de novo. Que se ganhava o que ali as vezes nem doutores e que não era tão dificil como outro lado qualquer porque, afinal, esses portugueses falavam a mesma lingua e derivavam da mesma gente que o brasileiro. Um dia voltou Edson, o primo que tinha abalado anos antes para Lisboa com o padrinho. Naquele Inverno voltou para matar saudades da família. Afinal não estava lá na Lisboa mas num lugar chamado Coimbra – “Sabe Bruna, não é facil não, viu. Um cara dá duro. Tem que agarrar o trabalho, não importa qual. Mas ao pé desse sufoco...  … eu acho que eu não volto, não.” – “E você gosta de viver lá, Edson?” – “Ah, a gente sente saudade. Desse cheiro de terra, da nossa gente. Lá na Europa tu fala a língua mas tu não está na tua casa. Mas tu se acostuma. Tem gente boa, faz sol, é tranquilo.” - “ Você vai ficar por lá? Vai virar português?” – “Ah não sei...  … sabe, arrumei uma namorada. Uma baiana, veja só. Se tudo correr bem, vai logo e nos arrumamos. Se tiver o visto, fico sim. Quem sabe um dia eu volto...” – “Bethânia diz que tem garota que vai para lá e volta rica. É verdade?” – Edson coça a tez de chocolate e olha Bruna com esgar zangado – “Vira puta, isso sim.” – “Todas elas?” – O rapaz atira um seixo a deslizar em saltos entrecortados na pele liquida do rio – “Menina, lá ou você é pé rapada ou você é quenga mesmo.” – “Diz que vivem que nem princesa, tudo o que é bom. Ohana esteve cá. Você lembra dela? Pois é, então. Está ganhando uma nota preta. Diz que trabalha lá do não sei o quê de uma agência.” – “Que nada. É quenga mesmo.” – “E quenga lá ganha bem?” – Edson agora está mesmo zangado. Olha a prima com gravidade - “Que é isso, ficou maluca?!” – Mas a Bruna tão pouco lhe importa a censura. Olha a outra margem do rio, como se fosse a outra margem do oceano e pudesse ver Portugal – “Ah Edson. Eu preciso fugir dessa vida. Estou cansada de não ter nada, viver feito escrava. Olhe só minha mãe...  ... eu não quero morrer aqui, desse jeito. Sabe que mais? Vou tentar minha sorte lá na Lisboa.” – Edson ri – “E vai como, menina? Vai nadando?” - “Não sei, mas dou um jeito.” – E Bruna daria o jeito, não imediatamente. Mas o tempo convergiria para que Bruna desse o jeito. Podia ter sido mais simples mas a morena era inteligente para perceber que a simplicidade a pagaria da forma mais complicada. E por isso seria como pudesse, quando pudesse. Devia-o a Edson e aquela conversa, sentados junto ao rio – “Ouve só Bruna, tu não se mete em encrenca. Você pensa que é o quê? Pular fora da vila e ser o quê? Princesa? Tome jeito! Esses sujeitos você pensa que são o quê? É tudo bandido. Escrava! Aqui tu não é escrava. É pobre, isso sim. Mas essas garotas são escravas, sim. Tu não vai, não. Você quer ser que nem gado, tomar porrada?! Ir presa? Todo o dia estão falando de polícial que vai nos bordéis e todo o mundo vai preso. E dos bandidos. É, bandidos sim! Todo o mundo fala das mulheres que vêm desse país feito carne. Tem bandido que vive disso. Quengas. Você quer ser que nem boi?!” – Bruna não quer ser carne. Mas também não quer morrer ali, miserável, na aldeia de barracas miseráveis à beira rio. Quer ser como as garotas da TV, andar de carro, ter uma casa, roupas, jóias. Mas quer coisas mais simples. Tomar banho num banheiro decente. Ter a mesa farta, prendas no Natal, conhecer um homem educado que tome conta de si. Em todo o caso a conversa à beira rio produziria uma impressão duradoura que a afastaria dos sorrisos escarninhos das malhas da prostituição. Para uma criança que foi cuspida na pobreza nordestina e depois a adolescência catapultou para um rosto fino e um corpo esguio e alto, de pernas longas e peito rijo e apetecível, a sequência óbvia da estória mais velha de sempre é vir a ser puta. Rapidamente percebeu isso. Desde os doze anos, os míudos e os homens quereriam por-se-lhe em cima. Alguns, poucos, o conseguiriam. Porque Bruna tinha os olhos do outro lado do rio, como se o rio fosse o mar, e não estava muito interessada nesses homens. Arruinar o corpo e a alma, empranhar de um cachaceiro qualquer e dar sequência à balada patética de gerações que a precederam. Também não quereria ser levada como uma vitela para o matadouro dos sujeitos que vinham da cidade para assediar as raparigas mais vistosas. - “É tudo bandido.” – acabara por explicar Edson à prima de quinze anos, antes que fosse tarde demais. E portanto, por não querer conduzir-se para os proxenetas que vivessem do dinheiro que o seu corpo rendesse, a solução acabou por tardar mais dois anos antes que chegasse. Com dezasseis anos Bruna ia servir como empregada para casa do médico da vila, o sexagenário Dr. Werner, a alguns quilómetros. Lá passaria a semana de trabalho. Acordar cedo, ir às compras, limpar, varrer, esfregar, ajudar na cozinha, lavar a loiça, limpar, esfregar e no fim: “noite Dotô, noite Sinhá” - e Bruna caía exausta a dormir. Foi um período em que a mestiça que uns diriam que era morena, outros cabrita e outros talvez que fosse índia foi mais feliz e paradoxalmente mais triste. Bruna raramente tinha entrado e jamais tinha vivido numa casa assim. Não que a vivenda dos Werner fosse luxuosa. Era a casa minimamente abastada de um médico de pequena vila do Brasil miserável. Mas como em terra de miséria quem tem algo é doutor, aos olhos de Bruna aquela pequena vivenda de dois pisos e língua fronteira de jardim relvado era um palácio sumptuoso das mil e uma noites. Aquelas paredes de tijolo pintado, os tectos em madeira, os móveis, os pratos pendurados nas paredes, o fogão, os electrodomésticos, os sofás, a televisão grande e a dispensa cheia de embalagens coloridas transmitiam-lhe uma sensação indescritível de quimera, de que aqueles dois burgueses deviam ser as pessoas mais felizes do mundo, por viverem naquela casa. E portanto Bruna era feliz na sua bata de empregada a limpar e a comungar de uma fatia menor daquele bolo, por passar a semana na vila e naquele lar e por dormir naquele quartinho despojado, infímo, mas só seu. E era crescentemente mais desolador voltar à aldeia e à miséria das suas folgas, onde repartia um quarto sombrio com os três irmãos mais novos, e onde cada vez mais tudo lhe parecia tão feio, sujo e triste.
O inevitável acabou por acontecer. O olhar guloso que o velho médico lhe lançou desde sempre foi crescendo e minguando-se de embaraço. Mais tarde ou mais cedo acabaria por suceder e Bruna não se preocupava mais do que se preocuparia com os outros imbecis da aldeia, quando chegasse à altura de enxotar quase todos ou decidir que desejava estar com algum mais moço e jeitoso. Certo dia, quando descascava verduras na pedra da cozinha, o Dr. Werner entrou. Sentiu-o por momentos parar sem dizer nada. E depois já tinha o corpo encostado ao dela, a fazer-lhe sentir a erecção contra as nádegas, sob a saia e a bata - “Você sabe que me deixa louco, não sabe?” – Bruna desembaraça-se do corpo pançudo, que na verdade não se impõe – “Que é isso, Doutôr.?” – O outro fica a olha-la, com o desejo nos olhos azuis baços - “O que é que você quer para se deitar comigo? Peça garota, peça o que você quiser...  ... eu não vou forçar você a nada. Quero você de vontade.” – aproxima-se um passo tomando-lhe gentil pelas mãos na cintura mas sem querer forçar os corpos que se cinjam. Bruna olha-o cautelosa mas também não o repele – “Fale. Peça. Eu fico louco de pensar em ti, criatura.” – naquela tarde Bruna não pediria nada nem nada daria. Mas também não diria que não. Ao princípio não soube bem se estaria disposta a dar e o que poderia pedir. Mas na folga, no regresso à aldeia e no estar sózinha junto ao rio, a recordar uma conversa com quase dois anos, soube que encontrara o jeito que garantira a Edson que daria. - “Você quer me ter? Me arruma um jeito de ir para Portugal. Passagem, grana, os papéis.” - o médico ri. Estava sentado no escritório de paredes pintadas de azul, absorto na leitura, quando a rapariga entra, e especada, do nada, ali de pé à sua frente, como quem anuncia uma visita, ou que o almoço está servido, se sai com aquela - “Você quer me ter? Me arruma um jeito de ir para Portugal. Passagem, grana, os papéis.” – “Portugal? De onde você tirou essa ideia? E você quer ir lá fazer o quê? Pode-se saber?” – “Assunto meu....” – “Passagem, papel, grana...  ... você sabe quanto isso custa? Ora menina, para dormir contigo? Ficou doida? Por bem menos, vou na casa da Zulmira!” – Bruna nem pestaneja. – “Pois vai lá, Doutor, ficar com as quengas. Mas se quer-me ter, vai ser como eu disse.” – Reynaldo Werner olha a adolescente por cima dos óculos. Cada vez mais desabrocha aquele corpo e começa e perceber que tem que pagar o preço, tem necessariamente que pagar o preço. Porque está obcecado com a ideia de ver aquele corpo nu e deitar o seu corpo nu sob o dela, naquele quartinho despojado dos fundos da casa – “E quando?” -  “Quando você arrumar tudo. Quero ver na minha mão. Aí é quando você quiser, eu dou.” – Assim seria. Passariam semanas. O Dr. Werner trataria de tudo, das passagens e do visto. E depois, numa tarde em que a mulher estaria ausente, o médico consumaria a obsessão, à luz do candeeiro, a penetrar violentamente o corpo tenro da empregada. Dias depois o Boeing da Varig atravessava o oceano, transportanto no ventre, eléctrica de excitação, a rapariga que dera um jeito.
A torneira gira gemendo um rangido em fio e a água corre num tom baço de quase azul, do frio ao escaldante, enquanto na cozinha ruge o esquentador. Bruna prova a temperatura na pele da mão bronzeada. Satisfeita, tapa o ralo e deixa que a banheira encha. Água corrente. Ainda não perdeu o fascínio pela água quente que corra pelos canos de uma casa. Como a fascina a chama azul em que no fogão aquece um pouco de leite, e o plástico do estore que desliza a selar ou acender o dia para lá das janelas de vidro amplo. E a cama fofa do quarto onde dorme, sozinha, nesse pedaço de império que é só seu. O seu cantinho. Longe da família acotovelada da favela, da exiguidade do quarto dos fundos do Dr. Werner e do bolor daquela pensão de quengas, lá mais abaixo na cidade.

Jezebel wasn't born with a silver spoon in her mouth
She probably had less than every one of us
But when she knew how to walk she knew
How to bring the house down
Can't blame her for her beauty
She wins with her hands down
Jezebel, what a belle
Looks like a princess in her new dress
How did you get that
Do you really want to know, she said
It would seem she's on her way
It's more, more than just a dream
She put on her stockings and shoes
Had nothing to lose - she said it was worth it

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