Um corredor comprido, com as portas dos gabinetes a afunilarem, de metro em metro mais pequenas. Por algumas, franquiadas, entra a luz que cria ilhas de uma luz que difere da luz artificial das lâmpadas fluorescentes do tecto branco que o tempo sujou de amarelo ténue. O chão de lajes brancas e desgastadas, as paredes pintadas de branco rugoso. A meia profundidade contrasta a bata azul-água de Luísa, sentada sobre a marquesa, com as palmas das mãos apoiadas sobre o couro negro. Deixa baloiçar as pernas que não tangem as lajes, como se tivesse de novo menos quarenta anos. O que aquele médico da barba amarelecida pelo tabaco lhe disse não foi completamente uma surpresa. Era como se adivinhasse sem realmente saber que o que dentro de si apagava a luz em dias intermitentes era um cancro que a comia. A morte... ... Luísa nunca reflectira verdadeiramente sobre o sentido da morte. A morte era algo de inevitável que haveria de suceder. Enquanto estivesse viva, sem nada que adivinhasse o fim para o dia seguinte, meditar sobre isso seria um puro desperdício da sua energia e, sobretudo, da sua alegria. Mas agora já podia adivinhar o fim, ali tão perto. - “Vou morrer?” – como se responde a esta pergunta? - “Não, não vai, é só uma porra de um cancrozito!” - “Sim, sim, deste ano não passas, Luísa, vais bater a bota. Kaput.” – Pois... ...Talvez não fosse muito curial esta absoluta honestidade clínica. Talvez por isso tenha ouvido que iam começar imediatamente os tratamentos. A equipa ia fazer tudo mas a força tinha que ser sobretudo dela. Sim, de todo que sobretudo a ela convinha essa dita força. A ela, afinal, saía a fava. Quimioterapia. Tinha uma ideia que não devia falhar por muito do que a esperava. Como uma torquês com que a dias marcados lhe torcessem a carne até que cuspisse as entranhas. Definhar, perder o cabelo e sentir o seu âmago transvestir-se em náusea. E no fim, sentença de morte. A tortura química seria apenas o aperitivo. – “Olá Luísa. Posso tratá-la por Luísa?” – Luísa levantava o olhar das lajes na direcção da voz jovial de Sara que lhe estendia a mão. – “Sara Reis, sou a psicóloga do Serviço. Podemos conversar um bocadinho?” - “Falar... ... olhe Doutora, e de quê? Han? De quê? De que tenho um cancro na garganta? De que vou morrer? Não me leve a mal. Mas eu acho que não consigo falar. Falar de quê, não é? A Doutora não tem nada a dizer que me possa valer, tem? Que vou morrer, sei bem. É por isso que está aqui, não é? Eu não consigo falar, estou vazia.” - por um segundo os olhos voltam às lages. O cabelo longo e grisalho, amotina-se do travessão castanho em que viera composto – “Diga-me uma coisa, Doutora. A senhora que é treinada para comunicar a morte ou ouvir a morte, sei lá, diga-me. Ao fundo daquele corredor está o meu marido à espera. O Dr. Ceia disse-me que vão tentar tudo. E o que digo ao meu marido? Que vamos tentar tudo? Ou que o vou deixar só. E como se diz a um filho que estamos a morrer. Diga-me, Doutora? Porque eu não sei. Ou não diga nada. Se não tiver respostas mágicas... ... olhe... … não diga nada.” - os olhos humedecem-se vermelhos do choro que não tardará mais do que segundos. Os músculos do rosto distorcidos pela raiva. Mais que a dor, é a raiva. É a raiva que trás as veias ao pescoço. A garganta, essa galopa na cadência irregular dos soluços. Sara quis colocar uma mão afectiva no ombro de Luísa mas o corpo da paciente esquiva-se-lhe num movimento de repulsa a qualquer conforto que se lhe se oferecesse. Corre desengonçada para desaguar no fim do corredor. Por ora a Sara nada resta fazer. Primeiro virá a raiva. Depois, quem sabe? O I.P.O. é a casa das mil mortes. Mil mortes iguais, sob o signo do caranguejo. Mil almas diferentes e tantas formas de dar o mergulho. Ou não, talvez não. Os caminhos são tão diferentes e todavia tudo desagua nesse mesmo momento. A morte, quase sempre solitária. Os hóspedes daquele bloco cinzento raramente têm quem lhes aperte a mão nesse último momento. Morrem tantas vezes sozinhos, para despertar o horror na retina do enfermo ao lado. É um viveiro onde se semeiam vidas a prazo e amputadas de esperança. As chamas extinguem-se quase sempre sem alarido. A naturalidade dos ponteiros de um relógio que se movam conformados do ciclo do tempo. Mas o que mais impressiona é a solidão do momento. Sara não tem fé em extremas-unções mas acredita na redenção de uma mão que afague, de uma presença. O Luís Barreto, o fotógrafo, morreu absolutamente só. A auxiliar lambia a esfregona no chão mesmo ali ao lado. Mas se o último impulso de dor não lhe tivesse fulminado o peito em espasmo antes que o coração desistisse de bater, nem teria dado por isso. Para todos os efeitos, o Luís morreu só. O Senhor Azevedo teve mais sorte. O velho gentil que conseguia não tossir enquanto articulasse um piropo cortês à enfermeira que passasse. Recordava as palavras da Lucília. - “ Estava a lavá-lo. Levantou uma perna. - “Mas haverá jogador da bola com pernão melhor que o meu, menina?” – “Ria-se. Coitadinho.” – Disse que tinha fome. Nesse dia comeria um boi. – “Estava tão bem disposto. E morreu com aquele sorriso, antes que eu pousasse a esponja e desse o serviço por feito. Estava morto. Com os olhos fechados e um sorriso tão, tão bonito.” - E a Sara vem-lhe à memória, tantas vezes, o avô. Saíu daquele mesmo Hospital para ir morrer a casa, à casa paterna de Sara. Para mais de dez anos. A neta fora incansável. A mãe afundara-se numa depressão, impotente para enfrentar a doença do pai que definhava em dor riscada no olhar, ali, horas a fio, a ranger a angústia nos dentes. - “Estou para aqui a morder pano.” – desabafava quando lhe inquiriam do seu estado, sempre sem desfitar o olhar que prendia na rua lá fora. Dias, semanas? Quanto faltaria? O Carvalho frondoso da rua parecia mover-se numa roda do tempo diferente da sua. Lento no seu trajecto, majestoso. Mas ele, o que tivesse de majestoso dos anos gloriosos da sua juventude e de um corpo atlético, perdera na idade. Como é que um homem altivo e vigoroso chega a ser aquele destroço, leve como uma pena, que o genro carregava ao colo como se nada lhe pesasse, de corpo ossudo, peles e carnes descaídas? Não queria ser aquilo! Tolerara a lei da sua velhice. Achava que sim. Os anos abastardam o Homem, isso é certo. Mas a pena de Afonso violava já os requisitos mínimos do que poderia ser uma vida, mesmo a vida de um velho. Por isso, esperava conformado que a morte substituisse a dor e os dias a fio naquela cama. As drogas, a neta e o Carvalho, eis os únicos tóxicos que por um instante tornavam o cancro suportável. Talvez por isso raramente desviasse o rosto inclinado sobre a direita, que lhe dava a ampla vidraça do seu quarto do primeiro andar. Só a voz de Sara. Batia sempre antes de entrar. – “Vô...?” – ainda bem que assim era. Enquanto que a neta não franquiasse a porta, tentaria lembrar-se como é sorrir. Sara, a criatura mais encantadora que conhecera. Alma doce, voz de mel. A neta que lhe afagava o rosto e que ficaria à sua cabeceira horas a fio, a embalá-lo nas suas estórias. Na frescura da juventude da rapariga podia aceitar o seu ocaso. E Sara sabia-o. De princípio hesitara em se não magoaria o avô doente com o rócio dos seus dezasseis anos. Mas depressa tomou consciência de que era dessa alegria que o velho bebia o último fôlego que lhe restava nos pulmões podres. E por isso não se calava. Mal franquiasse a porta da rua, subiria as escadas em atropelo. Não ver no rosto dos outros o semblante da desgraça descansava-a que por mais um a dia dor estava adiada. Ou não... . .. batia de leve na porta. - “Avô?” – e se fosse à sua saudação que ele num desses fins de tarde não respondesse? Mas não foi assim. Por vezes o peito oprimir-se-lhe-ia com a ansiedade de não ter uma resposta. Giraria o trinco sem saber se estaria pronta para encontrar o cadáver do avô. E depois veria aquele rosto encaveirado de lábios semi-abertos e pálpebras cerradas nas olheiras cavadas do crânio. A ansiedade de dois passos até à cama. O suspiro de alívio de perceber que dormia. Morte adiada. Para breve, Sara não tinha ilusões. Não era já uma questão de esperança. Tudo se resumia a fazer o melhor do que restasse. A lição perduraria muito para além da morte de Afonso. E o melhor a fazer nessa tarde de Primavera era sentar-se na beira da cama e sorrir. Nos últimos dias a debilidade de Afonso era notória. Esquelético, com o fio de soro entrincheirado na veia. Já não falava. Sara entendia-o pela complacência do olhar. A mais das vezes nem despertaria enquanto Sara entrasse e lhe contasse do seu dia, a fazer viajar os olhos pelas bonecas de pano que colonizavam o quarto cor-de-rosa, até à doença do avô, o quarto de Filipa, que agora mitigava o quarto com a irmã. Mas naquela tarde Sara encontrou Afonso em vigília - “Vô, acho que estou apaixonada.” - Afonso sorriria, um esgar fugidio de vida – e Sara falaria de Pedro e de uma tarde de cinema e de como este Pedro lhe dissera com um sorriso - “Se te acho bonita? Que lata... ... digamos que te acho... ... peculiar. Sim, és peculiar!” - e depois atrevia-se a mais um beijo – E Sara, que não sabia o significado de tal palavra, calcorreou o trajecto para casa a repisar naquilo - “Peculiar. Mas aquele bacano está-me a gozar! O que é ser peculiar?” – Mas agora que já sabia achava-lhe graça – “Sabes vô, fui ver ao dicionário e quer diz...” – Afonso saberia certamente porque era Sara peculiar. E embora não tivesse tido tempo de lhe dizer isso, se pudesse, diria que o Pedro deveria ser um miúdo perspicaz, porque Sara era deveras uma criatura peculiar. Mas agora estava morto. Com o peito inerte em que já não ondulava o sopro de respiração e o olhar gelado na direcção do carvalho. Terminara o melhor que poderia. Um último relance de olhar sobre a neta que suspirava de amor e depois a serenidade da árvore que se vestia de verde no dia da sua morte. Sempre lhe fizera espécie o desnorte da doença nos dias soalheiros. Era uma contradição. Preferiria esquecer o Estio lá fora e fingir que era Inverno como dentro dele. Mas agora já não, que no calvário do cancro outra esperança não restara que a perenidade da árvore e a juventude de Sara. Estava tudo terminado. Sara soltava um suspiro enquanto corria a primeira lágrima e depois, com uma derradeira carícia, cerrava os olhos ao cadáver. Afonso, o prodígio da Natureza, o atleta de ombros largos que fora primeiro marinheiro, depois estivador, depois pugilista e depois vendedor de gravatas, morria assim, mirrado por um cancro que o derrotava ao fim dessa longa campanha. O gigante morria pequeno num quarto de bonecas.
Show me how you do that trick
The one that makes me scream" she said
"The one that makes me laugh" she said
And threw her arms around my neck
"Show me how you do it
And I promise you I promise that
I'll run away with you
I'll run away with you
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