Deixa cair o vestido branco sobre a cama e senta-se ela própria sobre o colchão fofo. Teresa está tão, tão cansada. Não sabe se a consola ou a oprime estar ali no quarto da filha, a olhar para aquele vestido de noiva que não conheceu casamento. Une as mãos numa prece e reza, olhos cerrados, o cansaço desenhado em olheiras negras que se confunde entre a conversa com Deus e a vertigem de sono em que as angústias e os pedidos perdem definição. A mulher deixa-se cair sobre a cama e adormece.
Provavelmente a primeira sensação foi de pânico, de olhar aquele quarto estranho e sentir o toque rugoso daquelas ligaduras que lhe selavam o rosto. Nem se atreveu a mexer-se, mesmo que provavelmente isso lhe fosse possível. Primeiro olhou ao seu redor, na panorâmica que os olhos permitissem, sem que tivesse coragem ou força - não o sabia - para mover o pescoço. Viu o quarto de hospital, a claridade matinal pela janela, a maquinaria à sua cabeceira, cheia de luzes e sinais que não entendia. Do que se lembrava? As luzes da estrada e depois o carro desgovernado. E por fim só escuridão. Portanto devia ter desmaiado, não sabia dizer por quanto tempo. Horas certamente, era já manhã. Sentia-se estranhamente calma. E o casamento? Hoje seria o seu casamento! Ironicamente emergia em si uma estranha sensação de alívio de estar ali naquele quarto de hospital. Salva pelo gongo de um casamento que tinha decidido que não levaria para a frente. Estaria inteira? A questão era pertinente. Teria pernas e braços sob os lençois brancos? Sim, podia antever os contornos que emergiam no subsolo do tecido. E sim, sentia-se dormente mas conseguia sentir e mover cada músculo do seu corpo. Mas e agora restava a Ana a questão do que devesse fazer. Onde estaria? A família devia estar raladíssima! E Ricardo? Teria que enfrentar Ricardo, teria que falar com ele. Que o casamento não seguiria nem hoje nem nunca. Como dizer-lhe? Agora escutava o som de passos que cresciam na direcção daquele quarto. Ana faz uma careta de pânico porque sabe que tem que pensar rápido.
Marília despertou cedo. Prescrutou o silêncio da casa. As filhas dormem. Mário deve ter adormecido no sofá. O facto de que não a apoquentarão tranquiliza-a. Acordou de bom humor e não quer de todo pensar naquela fita de ontem à noite. Tranca de novo a porta do quarto e coloca água quente a correr na banheira da suite. Abre o guarda-vestidos e faz o dedo viajar pelos tecidos. Está indecisa mas é um dilema que lhe apraz. A sensibilidade de sedas, algodões e linhos na pele. Finalmente tira um cabide. Um tailler creme, listado de cinza. Casaco e calça. Prostra o conjunto, indecisa. Acaba por lançar a hipótese sobre a cama desfeita. Mas ainda não é uma escolha definitiva. Voa mais um fato. Vermelho sobre creme. A banheira, há que ver a água! Ainda não. O volume tão levemente azulado de água enche menos que meio o volume. Marília verte o liquido pastoso do gel de banho que fere a água em tons de salmão e se dilui primeiro menos denso, depois espuma, enquanto o aroma de pêssego se espraia na atmosfera agora vaporosa do compartimento. Tacteia uma multiplicidade de frasquinhos que se perfilam a um canto do banheiro húmido. Natura, Revlon, Ives Roucher. Destape-se um frasco de vidro tosco da rolha minúscula e polvilhem-se sais na alquimia. Agora as mãos repousam o toalhão delicado no banco doirado de verniz que se avizinha ao banho. De regresso ao guarda-fatos. O que vestir? Espreita o tempo lá fora que amanheceu cinzento. Estará frio, certamente, pelo que talvez fazenda. Franze o lábio, em dúvida. Há que diluir o algum sono que ainda lhe entorpece a face. No lavatório passa água no rosto. E quando as pálpebras se abrem a ver no espelho o rosto que pinga não pode deixar de ficar ali, hipnotizada Marília das questões que o espelho devolve. Aproxima-se a querer ver mais em detalhes as rugas que se lhes esticam nos olhos inchados, do sono desta noite e dos anos da sua vida. Com a mão afaga o cabelo para trás, em busca dos prateados sobre o loiro pintados em nuances. Se conseguir marcação irá ao cabeleireiro. Serás ainda uma mulher bonita, Marília? Sim, serás por certo, que ainda sabes ler o olhar de sedução dos homens. Há um balanço entre a fiabilidade que o nosso valor ofereça à vontade de nos amarmos. Por alguns segundos o fio da balança de Marília equilibra-se. Mas é um instante passageiro na viagem que se transtorna sempre irremediavelmente entre a depressão e a euforia. E hoje a auto-estrada conduzirá em excesso de velocidade à ilusão de poder conquistar o Universo. Quem sabe se amanhã não sucederá o inverso? Sim, és a mulher que primeiro quiseste ser e depois foste. E isso ninguém te roubará. Sorri e encara-se mais uma vez no reflexo, procura o prisma do seu melhor ângulo, enquanto com o dedo entre os cabelos espera que a alguma tentativa caiam no ensaio do penteado idealizado. Depois desatarracha a tampa de um pequeno boião e deixa que o dedo mergulhe no verde pastoso. Massaja o rosto que lentamente se transveste numa careta verde, enquanto uma após outra demão de verde consolidam a máscara. O frasquinho regressa ao arsenal de frascos e frasquinhos, latas e latinhas, boions e pentes, e rolos, e secadores e ganchos e fitas e escovas e bisnagas e molas e esponjas, e lencinhos e caixas e pinceis e pinças. Lancôme, Estée Lauder, Revlon, Sisheido, Clinique, Clarins, Kerastase, Christian Dior, os olhos perdem-se na passadeira vermelha da beleza, algures numa vivenda dos arredores da cidade. O banho está pronto e a roupa cai pelo chão para que o corpo nu de Marília se tranquilize na água tépida.
Tranquilidade, absoluta tranquilidade que emerge do calor da água a amansar a luz pálida daquela manhã. O que fazer? Começa-lhe a faltar a imaginação que gize uma solução para o cerco que se parece fechar sobre si. As coisas não têm corrido de feição, é certo mas igualmente está confiante de que não há mal que sempre dure. O mercado de acções voltará a subir e Marília apenas aguarda esse momento para que uma jogada forte tape o buraco que se tem cavado. Fecha os olhos enquanto deixa que a esponja lhe afague o peito. O que fará hoje? Sara e Mário insistirão certamente com as suas malditas perguntas. E não lhe apetece estragar aquele Sábado. Sim, sairá para respirar. Apetece-lhe talvez ir até Cascais, tomar café à beira mar. Pensar no que fazer, depois verá, alguma solução lhe há-de ocorrer. A exigência creditória que a família lhe colocará hoje e mais uma prestação a vencer-se já na Terça-feira. Mas algo lhe diz que tudo correrá pelo melhor. Como sempre. Sorri e cerra ainda mais os olhos. Está confiante de que hoje a slot machine recompensará a fé que tem sentido em que algo está para acontecer.
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
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