O chá fumega no bule enquanto o metal de colher rodopia em remoinho de chá verde. Depois os lábios sorvem cautelosos o calor da infusão. Reconforta-se, aconchega o cachecol de lã castanha à pele. É uma tarde tão, tão, bonita. A Luna, nem a desolação do seu luto rouba a contemplação de Lisboa, a cidade de Santo António que a adoptou. É por isso que todas as tardes vem mastigar a sua dor ali, no regaço da Senhora da Graça, onde a visão da cidade não lhe apaga a dor mas pelo menos a mantém acompanhada, enquanto que ela recorde. Era com João que ali costumava perder a conta do tempo. Às vezes na anarquia de uma conversa, de um café e de um cigarro. Ou então na languidez de uma tarde de Verão, sem dizer nada, recostados nos espaldares das cadeiras da esplanada, a sentir o Sol flamejar-lhes a pele. João... ... que sorriso, que brilho de vida nos olhos azuis de água! Quando a Lua lúgubre de Luna se elevasse no céu, João estaria lá, sempre. Era o seu amigo, o seu amante e o seu anjo-da-guarda. Há coisas que pura e simplesmente sucedem. No primeiro dia, na redacção do Jornal, experimentava a grande angular, pela janela, na cidade lá fora. - “E tu morena, percebes alguma coisa dessa merda?” - Virou-se. E lá estava aquele tipo enorme de cabelo eriçado e loiro. Iria dizer alguma coisa zangada. Mas João antecipou a reacção no esgar de desagrado e antecipou-se - “João Bandeira, da Sociedade, muito gosto colega” - Foi a primeira vez que se sentiu desarmada por aquele sorriso sacana. Naquela mesma noite sentiria o hálito e a vontade do corpo de João dentro do seu. Há coisas que pura e simplesmente sucedem. Assim foi naquela noite de sexo violento com o sabor a cachaça no hálito. O amante que lhe mordia a nuca enquanto ela revirava os olhos e desenhava garatujas no vido embaciado. Lá fora, transparecendo, porque os dedos de Luna limpavam o vapor do vidro, uma Lua cheia sobre os telhados, inundando o quarto exíguo de umas águas furtadas na Lisboa da Graça.
Depois? Depois tudo aconteceu tão naturalmente... ... primeiro aquela pulsão sexual que te mantinha sedenta do seu corpo. A seguir o amor. Por aquele jornalista romântico e desavergonhado que tratava o néctar da vida por tu. Ao cabo de semanas João mudava-se de armas e bagagens para as águas-furtadas da Graça, esse apartamento de traça antiga e espaço tão exíguo como acolhedor, acotovelado com os sinais de Luna. Móveis de madeira tosca, almofadas garridas, velas, telas, queimador de incenso, cortinas a pentear o manjerico à janela, o vinho da bancada, o Santo António de barro, o Sol e a Lua, a guitarra e o CD de Djavan no leitor... ... “A Casa da Boneca”, assim a baptizara João na primeira noite, enquanto sorvia o fumo de haxixe, recostado no sofá ainda, antes que outra sede vos arrastasse aos atropelos até ao quarto. Foi a primeira de muitas noites. De todas as noites, naquela tua vida recomeçada. Podia ter sido apenas mais uma noite e mais um gajo. E no fim restaria Luna, sozinha na senda que sempre conhecera, a do seu caminho a sós. Aprendeste desde sempre que podias sorver a vida em alcateia. Sair por essas noites para violar todas as regras. Violaste tantas regras! Talvez os outros pensassem que o fazias para te rebelares contra a rigidez do apelido que carregavas. Mas não era assim. Porventura tenha começado assim, já não te recordavas exactamente. Mas com a adolescência tornara-se claro que a vida pulsava em ti, não para agravar quem quer que fosse, mas pura e simplesmente porque era uma fonte demasiado vigorosa para que se contivesse quieta, mais forte do que qualquer grilhão que te mantivesse submissa. Saia por todos os poros. Sob a forma das telas que pintavas, nas tuas jornadas pelo mundo, nas noites que passavas em claro, em brindes com os perdidos da cidade ou no corpo de um amante. Não seguirias as regras porque pura e simplesmente não lhes eras devota. A ti, o divino era-te revelado nos acordes da guitarra, no pastel a deslizar sobre a tua tela, na explosão da pele na pele, na tranquilidade do mar. Desde sempre Luna caminhara de pés nus na estrada dos sentidos. Ao acaso, guiada por sensações místicas. Sobretudo, sempre só. Poderias caçar em alcateia. Mas quando partias de novo, e quando te sentavas sob a Lua, era só que o fazias.
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