Álvaro conduz o Mercedes, veloz como sempre, a abusar do abandono da Lisboa, madrugada que é. Sobe às Amoreiras e depois apanhará a Ponte, no seu trajecto de regresso a casa. Hoje possuiu Bruna com raiva. Não por Bruna, nem pelo seu corpo curvilíneo. Raiva de memórias velhas que hoje afloraram e que parece que lhe marcaram a cadência com que aliviava o corpo à prostituta, para depois investir de novo. Por um segundo, o rosto de Bruna, apesar de tudo tão diferente, era o rosto das negras de olhar perdido de desespero que o fitavam enquanto aqueles filhos-da-puta as violassem, um após outro, até que todos se viessem dentro delas. Porque insistira aquela gente em olhar para si, que estava ali a rezar para que tudo acabasse, a fumar um cigarro nervoso, sem largar o gatilho da G3. Porque não olhavam antes para aqueles animais, que os amaldiçoassem. Porquê ele? Mas o lado puro e por desvirginar de si sempre soubera intimamente a razão. Porque aqueles olhos de mulheres esmagadas sabiam que ele sabia que aquilo tudo estava profundamente errado. E era por isso que numa lógica mais genuína que arrevezada, aqueles olhos grandes e negros das pretas lhe diziam que a culpa era dele.
Álvaro encontrou a casa imersa no silêncio. Nem os filhos sequer se mantinham acordados. No quarto, Sofia dormia profundamente, pelo que silenciosamente se mudou para o pijama de cetim que a mulher lhe oferecera no Natal com as suas iniciais e se deitou. Esfregou os olhos, tirou o relógio que pousou sobre a cabeceira e quis tirar a aliança – “Merda, a aliança...” – ficara certamente no quarto de hotel... ... mas amanhã pensaria melhor nisso. O cansaço chamava agora Álvaro ao sono.
I see the bad moon rising.
I see trouble on the way.
I see earthquakes and lightnin’.
I see bad times today.
Aquele som entrecortado de pás e vento. O zumbido de insecto amplificado regressava aos pesadelos e às recordações de Álvaro. No fim de noite, os helicópteros voam taciturnos em razia às copas das árvores. Frente a frente, Álvaro e António, trinta anos mais jovens, seguem sentados, joelhos quase encostados ao peito, espingarda entre as pernas. Nenhum dos quatro disse uma palavra desde que saíram há mais de meia hora. António olha lá fora o horizonte que adivinha a madrugada iminente. Para si se pergunta como é possível que o firmamento permaneça tão tranquilo, justamente no dia daquele baptismo de fogo que se avizinha. Álvaro nada disse. Nem o correspondeu das duas ou três vezes que lhe procurou um entendimento no olhar. A boina camuflada descida sobre os olhos que mantém fixos no chão, entretido no tique de fazer raspar no piso metálico do helicóptero o cabo da G3 – “Ainda não te borraste todo, oh verdinho?” - Serafim sorri com os seus dentes amarelos, num esgar que lhe espalha o bigode que parece maior que o rosto pequeno de feições vincadas que tem.” – António devolve o olhar do horizonte – “Não. Porquê, costuma-te acontecer, é?” – o outro sorri enquanto abre e fecha uma tesoura frenética de talho, como que hipnotizado pelo movimento ou pelo som de metal a silvar na fricção – “Só não quero que nos fodam todos. Se se acagaçam e fodem tudo, juro que sou eu que vos meto uma bala nos cornos. - “Deixa os rapazes, Serafim. Vão-se portar bem. Vai tudo correr bem. Somos cães, caralho! Vai ser limpinho.” – fala o Silva, o grandalhão do grupo – “Isso cães, depois logo se vê. Estes verdinhos ainda têm que o provar. Olha lá, já pensaste que daqui a vinte minutos estão a matar pretos, oh verdinho? Não sentem a tusa?” – Álvaro olha-o com o seu olhar cinzento. Nunca o confessaria, mas desde esse dia que passaria a temer o olhar de Álvaro e a evitá-lo. Foram alguns segundos eternos. Que transmitiram uma mensagem afiada que Serafim vislumbrou. Não voltaria a provocar nenhum dos dois novatos. Não depois desse dia. A ignorância recíproca e o zelar pela vida de todos nas operações seria o entendimento possível e aceitável. Só que esse dia ainda nem tinha começado. Álvaro olha António que lhe sorri. Um meio sorriso reconfortante e aqueles dois olhos verdes que parece que lhe brilham no rosto mascarrado de verde mortiço, a emergir na quase aurora. E Álvaro pensa como é bom poder ter um amigo de verdade ao seu lado para poder enfrentar o que se avizinha. Deus os ajude a ambos.
“Três minutos.” – o piloto desencadeia a contagem decrescente da Operação
Os helicópteros tocam o chão, sem deixar que as pás se aquietem e as botas militares pisam o mato e correm em todas as direcções. O coração acelera-se no disparar da adrenalina que impulsiona os músculos. Retém-se o próprio olhar de predador em corrida entre a vegetação que se abre sob o passo estugado dos militares semi curvados sobre si. Despontam os primeiros raios do Sol da manhã moçambicana que abraça a visão dos companheiros numa luz douradada. Ouve-se pouco. O som seco de mato que cede, o som da sua própria respiração e o caminho que se consome a cada passo em vertigem tremida sob o olhar. António vê Álvaro que o precede alguns metros. O Serafim apoia-o no flanco mais à direita com o Silva que transporta o morteiro e o Amílcar que corre pela esquerda em zig zag. Em ambos os flancos apercebe-se do avanço das outras equipas da malha que se fecha. Já ali à frente o mato abre-se e o terreno é quase aberto até ao casario. O Silva estaca, ajoelha-se e arma o morteiro. Serafim prescruta o movimento do outro lado. Nada. Ajoelha com o corpo apoiado num tronco e aponta para lá do campo aberto. Ao sinal António e Amílcar rastejam. Para Álvaro ficou uma corrida rápida a escudar-se numa árvore avançada no terreno. Enquanto corre pensa que naqueles poucos segundos se expõe à morte de um só tiro vindo das casas velhas que o mate antes que chegue a disparar uma única bala naquela guerra. Mas nada sucede e Álvaro deita-se no chão. Pisca o olho em mira à porta da casa mais próxima. Um silvo e depois uma deflagração de morteiro que levanta fumo para lá das casas naquele flanco. O morteiro do Silva faz-se ouvir atrás dos outros, e outra explosão rasga sobre o telhado de lata de uma habitação mais baixa. Mais estrondos. E depois os homens da frente precipitam-se em corrida sob o fogo de protecção dos comandos mais recuados. António atinge a parede este da casa onde caíra o óbus e lança uma granada para o interior, pela janela de vidros estilhaçados. Antes que se dê a explosão, um guerrilheiro ensaguentado sai a cambalear pela porta do lado este. A espingarda de Álvaro ecoa duas vezes, abafada pelo estrondo maior da granada que deflagra, e o homem cai morto com dois buracos negros no peito de onde o sangue embebe a terra – “Turra, à frente. Dispara, dispara! Dois! Dois! Caralho, mata os gajos, mata, mata!” – Serafim vocifera. Os dois negros de tronco nu dançam ao fim do corredor das casas abandonadas dos colonos, perfiladas naquela rua de guerrilha. Um aponta a metralhadora em rajada. O outro foge. Álvaro ouve o silvar das balas e apenas consegue mergulhar para dentro da casa baixa. Serafim e António respondem e o rebelde cai com uma bala alojada no pescoço de onde espirra o sangue. Álvaro olha em redor a habituar os olhos à penumbra. A um canto um corpo mutilado pela explosão da granada que António lançara. À porta o inimigo que ele próprio abatera está morto com os olhos muito abertos e fixos, Álvaro juraria que em si. Não sente nada. Pelo menos nada do que julgou que sentiria. Nem medo, nem culpa, nem sequer regozijo. Apenas uma excitação inexplicável – “Morteiro! 30 metros, Sul!” – nova detonação no ponto onde se alojara o inimigo que escapara. Depois mais outra. E depois o morteiro calou-se. Os restantes quatro correm, as G3 em posição de tiro. Depois da curva há o que parece ter sido em tempos um armazém. A porta de alúminio está entreaberta. Sobre a pintura verde que se descasca a desnudar ferrugem há dedos de sangue que vêm em trilho de mais perto e que desaparecem para lá da porta. – “Granada!” – Serafim dirige o olhar a António que vai obedecer. Mas para lá da porta responde uma voz jovem, num urro distorcido pela dor. - “Deixa sair. Rendo-me! Não atirem! Não atirem, eu saio!” - Os homens apontam à porta – “Ninguém dispara, caralho!” – Faz mira – “Cá para fora! Cá para fora! Já! Quero ver as mãos! Quero ver as mãos. Pra fora caralho!” – Um míudo. Um míudo magricela. Um negro que ainda não perdeu no rosto os traços engraçados de pretinho. Teria… … uns quinze anos? António não sabe dizer com certeza. Sai a cambalear. Arrasta uma perna ensaguentada onde se cravaram mil e um estilhaços. Olha os portugueses com olhos semi-cerrados, carneiro mal morto, carneiro mal abatido, antes de golpe mais certeiro. Tenta manter os braços no ar – “Amílcar, zona?” – “Limpa!” – E Serafim sorri. Um sorriso mau. A eriçar o bigode. A mostrar os dentes amarelos – “Agarra o preto.” – António arrepiou-se. Como não o fizera até ali que tinha sentido a vida na linha. Adivinhou algo muito mau – “ Lobo, Mangorrinha, segurança!” – o bruto do Amílcar atirou o míudo ao chão e enquanto com as mãos lhe imobilizou os braços, usou o joelho para lhe esmagar a cabeça contra a terra. A cara do míudo distorce-se em dor, sob os canos de três espingardas a centímetros do seu crânio. Depois Serafim tira a tesoura de carne do bolso do camuflado. Ajoelha ao lado do prisioneiro imobilizado. Uma mão agarra e puxa com força a cabeça pela carapinha e com a outra manipula a tesoura que silva no abre e fecha das lâminhas retorcidas em sabre. António olha o amigo. Como se lhe suplicassse algo no olhar. O peito de Álvaro arfa e os olhos vagueiam em redor. Para o acesso à entrada, para os dois homens que oprimem o infeliz, para António – “Preto do caralho. Vais ver...” - A tesoura decepa uma orelha de um só corte. E o grito infantil gravou-se para sempre na mente de António. Um grito chorado – “ Mãe, Mãããããããe.” - Corre o sangue pastoso, a submergir o rosto do negro e depois em rio pelo chão - “Serafim sorri. Pousa a tesoura de lâmina embebida. Acende um cigarro. O rapaz grita e chora na mais aguda da dor de um homem, de um míudo, sabe-se lá o que ele é naquele calvário. E num último impulso desesperado quer-se escapar a contorcer o corpo que se arranha na terra. Mas é o corpo delgado de um adolescente sobre o corpo de besta sólida do Amílcar e portanto nem mexe. Álvaro está gelado, de pupilas arregaladas, os dedos em garra que esmagaria a G3 se raiva fosse força. António não consegue deixar de olhar. Aquele rosto coberto de sangue. Aquela criança que urra de dor e de desespero e chama pela mãe. As lágrimas brotam de António. O rosto não chora, o corpo não se desfaz em pranto. Mas os olhos são um caudal que lava a cara do Comando e desfaz o verde que lhe camufla a tez. Deviam impedir aquilo. Matar aqueles dois cabrões e com uma terceira bala colocar um fim ao desespero daquele míudo mutilado. Mas António sabe que nada pode. Ou se pode não terá coragem. Porque a cobardia, ou o maldito sentido de dever ou de lealdade ou lá que filha de putice que o prende ali o manterão inquieto a vigiar a rectaguarda de um monstro que retalha um míudo com uma tesoura de carne. Serafim retoma a tesoura e força com o bico que uma das lâminas entre na boca ensaguentada do prisioneiro. Depois de uma tesourada rasga-lhe uma bochecha, até à articulação do maxilar. O sangue jorra em golfadas da face desfeita em abas de carne pendentes como carne no talho. O moribundo perde os sentidos e cai, boneco de trapo – “Acabou-se o brinquedo.” – Com uma última tesourada de mão ensaguentada, Serafim rasga-lhe a carótida. Mete a orelha no bolso, junto com a tesoura que goteja. – “Está a sair daqui.”.
Depois? Depois Álvaro não recorda muito mais. Nem sabe bem como saíu dali, nem como nem por onde correu até que os helicópteros os resgatassem. Demais, a memória é só António de olhos fixos no vazio com as lágrimas a correrem-lhe o rosto. E o som, aquele som das pás do insecto que leva a morte.
Someone told me long ago
There’s a calm before the storm
I know, and it’s been coming for sometime
When it’s over so they say
It’ll bring a sunny day
I know, shining down like water
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