Os dois amigos descem os poucos degraus de pedra que precedem a pesada porta metálica do Skinframe Club. Um porteiro alto e maciço franqueia a porta após um olhar por uma portinhola. – “Boa noite, Dr.” – Boa noite Rogério, responde-lhe Francisco. – “A casa está boa?” – “A casa está sempre boa, Dr....” – Para lá da porta emergem na penumbra entrecortada pelas luzes multicolores dos projectores. Uma bola de espelhos faz dançar uma multiplicidade de desfoques esbranquiçados pela parede e os ouvidos enchem-se dos sons dolentes do reggae de Bob Marley. No plateau, um promontório ao canto do espaço, dir-se-ia jaula sem grades, espécie de recanto decorativo das fantasias do Skinframe, uma stripper adia em mais um malabarismo que caia a última peça de roupa. Nos sofás de veludo azul cuspidos em plateia em redor, clientes e raparigas bebericam champanhes, caipirinhas e whiskys à laia da conversa. Algumas raparigas dançam na pista. Nem um homem por lá. Esses não vão ali para dançar. Elas tão pouco lá vão para isso. E no entanto dançam. Ali, de alguma forma, todo o universo baila um ritmo dolente. Uma espécie de reggae menos rápido do que aquilo que parece ser. Naquela cave de decoração retro, respira-se a atmosfera doce, decadente e patética do alterne de Lisboa.
Francisco faz sinal ao chefe de sala que acede com um menear de cabeça e por sua vez segreda algo ao criado já quarentão do casaco branço e laço preto. Faz sinal para que o sigam e os dois amigos são conduzidos à sua mesa. Sentam-se. Francisco, melhor do que isso, resfatela-se. Pede ao empregado dois whiskys duplos da sua garrafa - “Disto é que eu gosto! O palácio dos sonhos. Um gajo olha a volta e pensa: eu posso foder estas gajas todas. Em abono da verdade, metade delas já eu devo ter fodido. E outras tantas fodeste tu, pois claro! E hoje está-me a apetecer lamber a cona a uma pintelheira loura” – Álvaro sorri. Porque é que o Xico tirará prazer em colocar as coisas assim? Nem são cruas. Uma virgem com a cabeça cheia de sonhos tontos colocará o sexo em acorde doce de algo que um dia a vida lhe ensinará que não existe. Depois há a realidade. Àlvaro crê ser ele mais coisa menos coisa a realidade. O prazer, o desejo, o hedonismo de um homem que gosta de mulheres bonitas, de usufruir tudo o que possa. Francisco é outra coisa, é o inverso da fantasia boa e no entanto também ele fantasia. A sua forma decadente e misógena de lidar com as mulheres com que dorme é, pensa Álvaro, tão irreal como a da virgem que pensa que um beijo sabe a açúcar. – “Posso-me sentar contigo?” – É Bruna. Àlvaro sorri novamente – “Claro Bruna. Vá, chega-te para lá, deixa a moça sentar-se ao meu lado.” – Francisco arrasta o rabo mais para a direita e ele próprio faz sinal a duas das raparigas na pista de que são bem vindas a fazer-lhe companhia – “Queres beber o quê, Bruna?” – “Champanhe.” - Bruna pede sempre a mesma coisa. Álvaro já nem sabe porque coloca a pergunta. Afinal, aqueles encontros que se arrastam há mais de quatro meses são um ritual, dir-se-ia, imaculado nos seus preceitos. “Imaculado”… … seria o adjectivo mais irónico para descrever a relação que mantêm, Conheceu a brasileira ali mesmo e é rara a semana que não pague pelo seu corpo. Supõe mesmo que deva ser o seu melhor cliente. Gosta dela. Não da forma como pudesse gostar de alguma mulher mas da melhor forma como se pode gostar de uma prostituta. Bruna. 18 anos. Uma rapariga alta, esguia, cara bonita de mestiça a quem corra sangue indio nas veias. Mas não tem esse ar vulgar de outras mestiças que Álvaro tem como vulgares. Tem um rosto agradável que se não fosse talvez um pouco quadrado demais seria verdadeiramente nobre. E é delicada. Humilde mas delicada. Álvaro aprecia isso. Abomina a falta de modos, a vulgaridade. Essa só perdoa ao traste do Francisco. Talvez porque lhe encontra outras qualidades que o compensem dos seus pecados. Não sabe bem se é por isso, talvez o seja. Mas Álvaro não é de todo como Francisco. E é por isso que sempre se dirige com delicadeza aquela prostituta com quem se deita a noites amíudes. E por isso sempre a toca com delicadeza quando a penetra com ardor e por isso lhe afaga gentil a longa cabeleira de india Pocahontas, quando a brasileira deixa que o seu pénis se consuma de prazer na sua boca – “Você está bem, Filipe?” – “Estou, Bruna, estou. Quando acabares, vamos?” – “Hoje o Filipe não quer chegar muito tarde à patroa.” – Francisco insiste em entoar o “Filipe” num tom de zombaria. Como que a dizer que se escangalha a rir da cautela do amigo em usar “o pseudónimo”, como lhe chama – “Bah, sejamos descarados. Os nossos pecados veniais, ou melhor, os teus, emergirão quando a Deusa Vénus quiser e não quando tu possas prever que assim seja.” - dissera-lhe certa vez - “Bom, Francisco, ligo-te depois...” – “Sim, leva lá o naco.” – E Francisco vira as costas a enfiar descontraído uma mão entre as pernas da rapariga do leste, enquanto a outra ampara o copo meio de whisky.
Luísa desce a camisa de noite, mesmo por debaixo dos lençois, enquanto que António se levanta, nu abaixo da cintura e vai à casa de banho. O sexo, após aqueles anos todos de convívio, já não é o arrepio nem a loucura de outros tempos. Mas enquanto urina, António pensa que ama Luísa.
Have I told you lately that I love you?
Have I told you there`s no one else above you?
You fill my heart with gladness, take away all my sadness,
Ease my troubles, that's what you do
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