quinta-feira, 6 de setembro de 2012

São Valentim - A Guilda dos Melancólicos - A Senda de Luna - Parte VII


O fim de tarde já se fragmentou em noite deste décimo quarto dia de Fevereiro, o mais triste de que há memória, nos confirmariam Santo António, São Valentim e todos os Santos que gostam dos amantes, se lhes perguntássemos. O ar esfriou, bem como os despojos de chá na porcelana alva em que esfrega concentricamente, sem rota, o dedo indicador. Hora de regressar a casa. Não há um só motivo que o justifique, a não ser talvez que é inútil ficar ali a deixar que o gelo que lhe prende a face se arraste ao resto do corpo. Hoje ninguém lhe oferecerá flores como há um ano, levará a jantar ao Bairro Alto, ou a ver uma peça à Trindade. O telefone não tocará e as únicas vozes que a mantenham na ilusão que não está absolutamente só virão pelo som da televisão. O bicho da solidão voltou. E agora esse beijo já não tem hálito a introspecção. Agora é um monstro que a rasga e lhe guarda a porta para que ninguém a ultrapasse que não Luna e a própria besta. Gira o trinco na velha porta que faz tinir o espanta-espíritos e solta-se-lhe um suspiro de um peito que pesa mais do que aquilo que pode suportar. O silêncio. Luna grangeou um pavor mortal do silêncio que agora oprime cada passo naquela casa. Pousa as chaves e a carteira no aparador de madeira tosca, acende duas velas e vai à cozinha. Desenrolhar a garrafa encetada de Monte Velho e servir o cálice que voltou a estar solitário sob a bancada. No frigorífico, um bilhete com a sua caligrafia, para si própria, recorda-lhe que depois de amanhã é a data do D.I.A.P. Por isso brinda consigo mesma uma saudação amarga e bebe de um trago. Encher de novo o copo, porque não...? Devia comer alguma coisa mas a garganta é um nó que o não permitirá. Por isso se enrola simplesmente na manta velha do sofá e acende o aquecedor a gás. Aos primeiros acordes de Djavan e já o choro é um oceano. Um choro profundo e sufocado para que nem a solidão a ouça. Ali entre ela própria e o Santo António de barro, com as bochechas argilosas douradas pelas velas que queimam sobre a mesa, interroga o gigante sorridente de uma fotografia a dois: “Porquê? Porquê, João? Sinto, tanto, tanto a tua falta... Ah Santo, estou tão, tão infeliz... ... estou tão só. Porquê?! Porque é que me abandonaste? Perdi o meu anjo...” - A voz embarga-se e as palavras escorrem incertas na cadência tempestuosa do peito que se agita - “Tenho tantas, tantas saudades...” - As lágrimas molham a manta e um sono anestésico em passos de algodão resgata mais uma vez Luna à sua pena. No sono e nos sonhos em que se evade sente uma sombra sobre si e depois um dedo que lhe acaricia a nuca. -“Boneca...” - “João?!” - “Psiuuu, não te vires, fecha os olhos.” - Luna acata, fecha os olhos e deixa-se ficar no calafrio daquele dedo em peregrinação sobre a sua sensibilidade. - “Tenho tantas saudades tuas. Volta para mim.” - “Não digas nada... ... ouve só isto... ... amo-te. Vais ser feliz.” - “Hoje fui ver-te.” - “Oh tonta, porque insistes em ir aquele cemitério? Se nem eu lá vou!” - Luna cerra ainda mais os olhos e sorri, sem saber que se vertem lágrimas etéreas que não molham o soalho de madeira. O sono mergulha mais fundo, ao fundo do lago do seu baptismo e as carícias do amor confundem-se com outras sensações, uma corrida na neve e sempre os braços de Natália que a resgatam. A morena chamou a si a sua guarda de Anjos. Mal sabe ela... ...dorme por ora Luna, enquanto que vele sobre ti o fantasma da tua saudade e lá fora, em outro foco da cidade corram outras lágrimas, líquidas como as tuas, e se sele uma jura.


Here I am and within the reach of my hand she's sound asleep And she's sweeter now than the wildest dream.
Could have seen her and I watch her slipping away But I know I'll be hunting high and low high -There's no end to the lenghts I'll go to


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